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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Quando 2 Rodas atrapalham 2 Rodas


Vejo acontecer com Bicicletas e Patinetes o mesmo que já vem ocorrendo há décadas com Motocicletas.

Comprei minha primeira Moto em 1982, alguns meses antes de completar 26 anos. Não fui um “early arrival”, mas àquela época a participação de Motocicletas no dia-a-dia era muitíssimo inferior à atual. Um Motociclista era então quase uma exceção, e vem desta época o hábito (quase esquecido atualmente) de nos cumprimentarmos quando parados em sinais de trânsito.

Entre os muitos problemas que os motociclistas sempre enfrentaram, veio uma má fama causada por maus motociclistas. Gente que subia nas calçadas, avançava os sinais, buzinava esganiçadamente, forçava a barra, colocava em risco os pedestres, automóveis e até os próprios colegas motociclistas. Isto existe até hoje, é claro.

Sempre fui avesso a “sentimentos de classe” do tipo defender outro motociclista só porque “é da panelinha”. Jamais! Deve-se defender quem está com a razão, esteja ela de que lado estiver. Maus motociclistas que causam acidentes são responsáveis por má fama e má vontade dos demais condutores quanto a nosso meio (livre) de locomoção. Um motociclista que faz cagada deve ser criticado e repreendido, e não defendido a qualquer custo. Ele está comprometendo “a Classe”!

Passaram-se os anos e veio então a onda das Bicicletas. Já fui atropelado 5 vezes por elas: duas na calçada, duas em faixa de pedestres estando o Sinal aberto para mim, e uma na contramão. Ouvi o imbecilérrimo argumento: “sorte sua que não era um carro”. Não é Sorte, não; se fosse um Carro, eu simplesmente não teria sido atropelado. Como jamais fui.

Surgem então as Patinetes, ameaçadora e covardemente enxotando Pedestres para fora de suas calçadas.

Este texto seria então um libelo contra Bicicletas & Patinetes? Absolutamente NÃO!!! O problema não são Bicicletas e Patinetes (e nem Motos), mas sim os MAUS ciclistas, os MAUS patinetistas, os MAUS motociclistas. São eles que levam má fama a todos os BONS usuários; são eles os camarões podres que estragam uma panela inteira de bons camarões.

Minha sugestão – e isto vale para todos, também para torcedores do seu Time que causam transtorno e arruaça, para pessoas de seu País que fazem baderna e sujam sua nacionalidade no exterior, para maus condutores de quaisquer veículos – é portanto: não acoberte o mau comportamento só porque ele é da sua tchurma. Critique-o, condene-o, eduque-o, civilize-o.

Se alguém usar uma Chave de Fenda para matar outra Pessoa, isto não torna as Chaves de Fenda instrumentos do mal.

Nem as Bicicletas, nem as Patinetes.

E nem as Motocicletas.


(Ipanema, 20190806)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Manifesto Bípede


“A diferença que existe entre andar de carro ou de moto é a mesma
     diferença que existe entre andar em 4 patas ou em 2 patas.”
     (Marcio Guedes)

Uma viagem a países asiáticos dá a exata dimensão de como o Brasil está atrasado em sua política de transportes "intracity".

Em muitos países da Ásia, a movimentação sobre duas rodas tem sempre prioridade sobre a movimentação em quatro. Assim, em ruas com (p. ex.) 5 pistas, 3 delas são dirigidas às motos e apenas 2 para os carros, ônibus e caminhões. O resultado prático desta medida é tremendamente eficaz: sem medo de serem abalroadas pelos desajeitados veículos grandes, as pessoas migram em massa para os biciclos! E assim o que se vê é uma profusão de senhoras, crianças, jovens, adultos, trabalhadores, e todo o tipo de gente andando em scooters, motos pequenas e bicicletas, trafegando céleres, incólumes e em massa pelas largas avenidas. E mais, sem necessidade de usar capacete, pois o trânsito intenso ocorre sempre a baixa velocidade, ininterrupto e praticamente sem acidentes. Não são motos grandes, pelo contrário; e até mesmo os carros, caminhões e ônibus são civilizadamente reduzidos. Todo mundo tem sua scooter e a utiliza civilizadamente, e aqueles que precisam usar o carro vão para a pista lenta, a pista dos quatro-rodas. É uma minoria.

No entanto, embora o Brasil seja pobre como uma Índia, tentamos aparentar ser ricos como os Estados Unidos. Veículos enormes, desproporcionais, dispendiosos e inúteis - a não ser para quem tem necessidade de se exibir para pessoas que se impressionam com isto. O luxo de poucos sobre as dificuldades de muitos. Priorizar o transporte em quatro rodas é algo tão estúpido quanto uma cidade do Velho Oeste onde a primazia fosse das charretes, carroças e carruagens, e não dos cavalos. O escoamento de biciclos por pistas exclusivas é imensamente mais eficiente do que o escoamento de quadriciclos, mas o que temos aqui é uma política burra e assassina de deixar motos e scooters (e agora as bicicletas) espremidas entre os carros, ônibus e caminhões, se sacrificando para tentar ensinar alguma lucidez.

Imaginemos se todas as motos passassem a ocupar cada uma o espaço de um carro: o trânsito iria parar completamente. Agora imaginemos se todos os carros passassem a ocupar cada um o espaço de uma moto: o trânsito iria fluir completamente. Um raciocínio simples que mostra a direção a seguir. Mas no Brasil o transporte inteligente e que ocupa pouco espaço é malvisto, mal gerido e desincentivado - o que mostra o alcance do cérebro de nossos “rulers”.

É claro que ululam argumentos a favor do conforto, do comodismo e da preguiça; afinal, o malfeito é muito mais fácil e menos trabalhoso do que o bem-feito. Mas tais raciocínios defendem o individualismo (do rico), e não a necessidade da maioria.  

Um dos sintomas de maturidade que aguardo desde sempre é que algum dia o bom-senso e a inteligência prevaleçam sobre o interesse financeiro (não é difícil vislumbrar quem são os que ganham com o favorecimento dos carros sobre veículos de duas rodas, ferrovias e transporte fluvial). Creio que aguardo em vão.

Um argumento favorável aos carros que eventualmente se ouve: “moto é uma coisa feita para cair”. Ora, trata-se do mesmo argumento usado pelo boi para defender que se ande de quatro!

O futuro é este. O tempo que levaremos para chegar a ele dará a medida de nosso atraso.

(nov/2013)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Bio-Piloto


Em 1978, o americano Stephen Leigh escreveu a noveleta “When We Come Down” (“Quando Descemos”), que foi publicada na coletânea “Asimov’s Choice: Extraterrestrials & Eclipses” organizada pelo Profeta Isaac (no Brasil: “Asimov: O Melhor da Ficção Científica”).

No conto, o personagem principal é um Bio-Piloto (BP), que são seres humanos que foram submetidos a diversas intervenções cirúrgicas que lhes alteraram as características básicas. Um BP recebe enxertos espinhais através de tomadas de entrada na nuca; seu cérebro, sistemas nervoso e somático, sua motricidade, tudo é alterado de forma a ser acoplado / conectado ao sistema de controle de uma nave espacial, formando com ela uma singularidade.

Os Bio-Pilotos são vistos como aberrações, pois caminham claudicantes, curvados e de forma trôpega, tendo pouco controle motor quando seus corpos estão sob a gravidade dos Planetas; são considerados repulsivos, aleijões, corcundas e aberrações. São hostilizados e ridicularizados. Ganham fortunas, mas pagam o altíssimo preço da segregação.

Tudo se transforma, no entanto, quando estão conectados a suas naves, e no comando delas: “Uma vez ligados, somos mais mente presa a metal frio do que carne viva”. O BP é o cérebro da nave espacial, e “sente” tudo o que ela registra, tem plena consciência de cada um de seus sensores, radares, cada junta, cada reservatório, cada sistema de alimentação. Quando estão integrados a suas naves e viajando pelo Espaço é quando se tornam senhores de si, com os sentidos amplificados e alavancados pela brutal força mecânica. São finalmente livres. Uma nave com um Bio-Piloto é um ser vivo. Detectam todo o cosmos a milhares de quilometros de distância. Voam como queiram, sem nenhum controle além de suas próprias consciências e desejos, à velocidades estrondosas, e sem que ninguém lhes possa comandar - são naves vivas. É em vôo que finalmente são felizes, sozinhos, isolados, em silêncio, infinitamente distantes dos comentários mesquinhos daqueles que não os entendem e os ridicularizam. Estão limitados apenas pelo Universo.

Li este conto com cerca de 23 anos, e jamais o esqueci. E até hoje, em todas as vezes em que ando de moto - sem garupa - sinto o prazer de me transformar em um Bio-Piloto.


(Nota - O início do conto dá a deixa para o título e uma medida de seu tom sombrio:
“Por alguma estranha razão, parece ser sempre noite quando descemos. Criaturas das trevas, nós: rindo e gritando para anunciar nossa presença indesejável para a neblina noturna e as fachadas vazias a nossa volta. Não somos das mais graciosas criaturas terrestres. (...)”)


(SP, nov/2013)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Take the Long Way Home


Quando se anda de moto, qualquer trajeto é passeio.

Assim, existem 2 ótimos motivos para um motociclista pegar um caminho que seja mais longo:
  • porque tal caminho tem menos sinais de trânsito; ou
  • porque é mais longe!

(ago/2012)

sábado, 3 de março de 2012

30 anos em 2 Rodas

Em março/2012 estou completando 30 anos de moto.

A primeira foi comprada graças a um coração partido (aliás, o parapente teve a mesma causa) (embora por outra causadora). Heartbroken no final da tarde de uma 6ª feira, eu voltava do trabalho na RHEEM em São Cristóvão na garupa do Roxo. Trânsito INFERNAL no Viaduto Paulo de Frontin (quase um Minhocão no Rio). Seguíamos tranqüilos pelo acostamento quando passamos por uma varanda onde uma Deusa apareceu enrolada somente em uma toalha, com os cabelos molhados. Dava para ver as gotículas d’água nos ombros desnudos, o Roxo enlouqueceu! Seguiu até o final do viaduto, deu uma “quebrada” à direita para evitar a entrada do Túnel Rebouças, contornou-o por cima da boca de entrada, voltou todo o Paulo de Frontin por cima do Rio Comprido, fez retorno no início da Francisco Bicalho, atravessou mais uma vez o Viaduto, e menos de 10 minutos depois daquela visão quase fantasiosa lá estávamos de frente para a toalha felpuda. Saltamos da moto fingindo que procurávamos alguma coisa no acostamento do viaduto (como os homens são ridículos) e o Roxo foi puxar papo com a moçoila limpinha. Ou seja, o que era um trânsito pavoroso para milhares de carros não significava absolutamente nada para uma moto! O Roxo foi rechaçado pela Deusa, mas decidi a compra na mesma hora.

Eu tinha 25 anos e desde sempre quisera ter uma moto, apesar da resistência ferrenha dos Pais e Avô. Chegando em casa naquela noite de 6ª feira, comuniquei:
- “Papai, vou comprar uma moto amanhã e gostaria de contar com seu suporte na negociação. Me acompanha?”
É claro que o Papai foi junto.

Meu Avô também sempre se opusera ferozmente a meus devaneios de compra de moto, afirmando peremptório:
- “Quando comprar moto não entra mais na minha casa!”
Quando voltei com o Papai na manhã de sábado após a compra da Yamaha RX180 (a mesma moto do Roxo), fui direto para a casa do Vovô, e anunciei da porta:
- “Vovô, comprei uma moto! Posso entrar?”

O Roxo tinha comprado sua RX180 umas duas semanas antes, e corajosamente (ou loucamente) a emprestou a mim no dia da estréia. Era alta madrugada em Botafogo (onde ele tinha um Restaurante), e fui dar uma volta no quarteirão. Parei em um sinal, duas da manhã, tudo deserto, silêncio e eu. Dois caras esquisitos se aproximam. Fico nervoso, tento sair apressado avançando o sinal, deixo um pé no chão como “garantia de equilíbrio”, a moto roda em volta de meu próprio pé (que mané!), e PLAFT no chão!!! Os dois caras esquisitos que eu temia se chegaram, e ajudaram a me erguer e à moto...

E ainda devolvi a moto ao Roxo em seu primeiro dia com seu primeiro tombo...

Algumas estatísticas destes 360 meses:

·         50 mil quilômetros rodados
·         3 motos (Yamaha RX180 1982, Honda CB400 1982, Falcon NX400 2004)
·         1 acidente sério (embora estivesse a baixa velocidade)
·         3 tombos no trânsito
·         cerca de 15 tombos ridículos (postos de gasolina, estacionamentos, parado em sinais fechados, etc)
·         nenhum retrovisor quebrado.

E muitas caronas felizes. Por mais que se possa afirmar em contrário, jamais encontrei uma Dama que se recusasse a andar de moto. Muito pelo contrário: Mulheres ADORAM moto!

E eu também!



(mar/2012)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Palavra de Carneiro!

Em 2004 eu me preparava para comprar uma moto FALCON 400cc, e sondava várias revendedoras Honda.

Em uma delas conheci o Carneiro, um vendedor lendário no mundo motociclístico.

Conversando com ele manifestei minha principal preocupação, que é a mesma de todo motociclista:
- “A Falcon é muito visada por assaltantes?”

Nunca passa uma semana inteira sem que eu me lembre da resposta do Carneiro:
- “Meu amigo, roubam até galinha! Não vão roubar uma moto?!?...”

(ago/2011)

domingo, 3 de abril de 2011

Vive la Différence!

Considero que a
diferença entre andar sobre 4 rodas e sobre 2 rodas
é a mesma
diferença entre andar sobre 4 patas e sobre 2 patas.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Correndo contra o Muro

Estando de moto ou de carro, ele sempre estranhava quando era ultrapassado em alta velocidade por algum outro veículo mesmo havendo uma barreira de carros parados debaixo de um sinal fechado alguns metros adiante.

Considerava o uso do freio um sinal de ineficiência; um indicativo de que o motorista tinha usado o acelerador em demasia anteriormente, consumindo um combustível que seria desperdiçado logo em seguida com um igualmente desnecessário gasto dos freios. Em resumo, quanto mais se necessita frear ao dirigir, maior a comprovação da limitação de raciocínio.

Mas aquela vez foi demais. Era uma tarde de sábado e ele vinha de moto pela larga e bastante deserta Avenida JK em São Paulo, e o sinal estava fechado cerca de 100 metros adiante. Ele estava a 50km/h no centro de uma faixa de rolagem, e foi subitamente ultrapassado por um veículo que ia a mais de 100km/h na diagonal, cruzando as faixas vazias quase como se quisesse atingí-lo (ou ao menos assustá-lo). O “grande piloto” evidentemente teve que fritar seus freios, e parou alguns metros adiante, atrás dos carros que já estavam parados no sinal bem antes daquela presepada.

O motociclista não resistiu. Passou devagar pelo veículo, e quando estava ao lado do motorista, levantou a viseira e disse:
- “Correu à toa...”
Enquanto se afastava ele ainda ouviu o urro do piloto do carro:
- “VAI TOMAR NO ESFÍNCTER!!!”

O motociclista foi embora rindo, e divagando porquê será que as pessoas não gostam de ouvir a verdade...

(dez/2010)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Perfume e o Barulho das Motos

Li certa vez que "usar perfume é uma forma de ocupar mais espaço do que aquele que nos foi originalmente destinado".

Sempre me lembro disto ao ouvir motos barulhentas passando. Os roncos dos escapamentos abertos estão imbuídos deste mesmo conceito...

(set/2010)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dirigir Bem

Para muita gente, dirigir bem é correr.

Quanto mais correm, mais se julgam "ótimos motoristas".

Evidentemente são iniciantes no volante - ou então rematados Boçais.

Quanto mais estas pessoas 'socam a bota', mais mostram o quanto são parvos.

Devemos agradecer quando um Mané nos ultrapassa em alta velocidade, pois será em um Outro (carro, caminhão, ônibus ou poste) que o Palerma vai se arrebentar.


(Nota: Existe uma marca de carro - importado, é claro - que é campeã em termos de motoristas arrogantes e perigosos. Se você tem um veículo de tal marca, as chances de que seja um Legítimo Babaca são ENORMES!)

(set/2010)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Omelete

O passar do tempo insiste em mostrar o quão tolas e ingênuas são nossas vaidades, por menores que sejam...

Eu me orgulhava de jamais ter caído de moto desde 1982, quando adquiri minha primeira. Nenhum tombo em mais de 40.000 km, exceto alguns tão bobos que não merecem constar de qualquer estatística.

Peço desculpas àqueles que ficaram engarrafados no cruzamento da Av. Juscelino Kubitschek com Clodomiro Amazonas em São Paulo, na tarde do sábado 2 de julho. Era eu aquele omelete esparramado no asfalto, que levou a CET a interditar o cruzamento por mais de uma hora, deixando passagem para somente um único veículo em cada direção.

Fiquei imediatamente imóvel no chão, pois a dor no antebraço esquerdo era horrorosa, enquanto no resto do corpo nem sequer um arranhão ou qualquer gota de sangue. Soube posteriormente que da moto quebrou-se apenas o plástico de uma lanterna, e soltou-se o manete da embreagem – e mais nada. Ou seja, o tombo foi bobo, em baixa velocidade, mas com um terrível mau jeito: caí exatamente sobre o ombro.

Uma (gatíssima) enfermeira que passava pelo local na hora ocupava-se em me manter imóvel e acordado, embora eu já soubesse que nada acontecera – a não ser com o malfadado braço...

Os amigos Fabio Star e Ronaldo Carvalho prontamente acorreram ao Hospital São Luiz, me internaram e acompanharam até a chegada na manhã de domingo de – quem, sempre? – P&M, afinal os Pais são mais alertas do que escoteiros. Ficaram em Sampa por uma semana, até que o irritadiço pimpolho de 49 anos estivesse novamente em condições mínimas de subsistência by himself.

Após alguns quase-desmaios de dor no Hospital – porque o Neandertal se recusa a tomar remédios, preferindo sentir a totalidade da dor “para corretamente auto-avaliar meu estado” – o raio-X vaticinou: úmero destroçado, o osso do antebraço, bem próximo ao ombro. Cirurgia obrigatória, marcada para dentro de 24 horas que acabaram sendo 48 – e neste meio tempo aquela afiada e pontuda haste de osso solta louca dentro do braço, se deslocando livre a qualquer mínimo movimento, espirro, bocejo ou mesmo pensamentos; isto sim é exercício de desapego.

Após a operação na tarde da segunda-feira, cheguei a pensar que me tinham amputado o braço, pois não conseguia sentí-lo. Chama-se “bloqueio”, um completo isolamento nos nervos de todo o membro. Me senti no Céu – mas apenas por algumas poucas horas.

Tornei-me assim o feliz proprietário de uma haste de titânio de 170mm de comprimento e diâmetro que varia de 11mm a 8mm, implantada e pendurando meu antebraço, deixando uma parede de osso que chega a ter apenas 4mm de espessura; e com 5 parafusos passantes, um com 60mm, dois com 50mm e dois com 30mm de comprimento. Estimo que a retirada de tal estrutura se dê em minha exumação. Os médicos sugeriram – não sei se por brincadeira – que passe a carregar uma cópia da radiografia junto aos documentos, para quando for entrar em bancos, correios, alfândegas ou embaixadas...

Barbado, desgrenhado e sedado após a operação, ouvi nas brumas o diálogo seguinte. Mamãe ponderava:
- “Espero que agora ele pare com a moto...”
Fabio Star estava de bermudas e mostrou diversas cicatrizes nos dois joelhos e nas mãos, ressaltando que “é tudo de tombos de moto”, e que nem por isto ele parou. Gabriel mencionou seu Pai, que tem 4 motos (!) e graças a elas diversas entradas em hospitais. Gabe desistiu de ter moto – mas seu Pai, não.

Aprendi que “a noite é inimiga dos enfermos”: atualmente acordo regularmente a cada hora com dores atrozes, nenhuma posição para me ajeitar, e dificuldades para voltar a dormir por mais uma horinha. Agora entendo as dores que o Robocop sentia.

Minha namorada me tachou de “brinquedo paraguaio”:
- “Brinquei só três meses, e já quebrou o bracinho!...”
Ela agora só me chama de “R$1,99”; alguns amigos preferem me chamar de “Darth Guedes”.

Continuo achando que a responsabilidade é sempre do motociclista. Somos invisíveis, a moto surge do nada, os motoristas dos carros não têm como saber. Acho mesmo que motos não deveriam ter buzinas, pois o motoqueiro que vai buzinando pensa que está jogando para o motorista uma responsabilidade que é dele. É claro que o carro que saiu da pista central da JK para a Clodomiro cortando à direita, sem botar pisca e sem estar na pista correta, e que me fechou, arrastou e derrubou, teve culpa. E daí? Sou eu quem está com o braço dependurado, inchado, dolorido, com permanentes fisgadas em músculos e nervos, e sem sentir dois dedos. A direção defensiva me manteve fora de acidentes por mais de 20 anos; é só nela que podemos confiar.

É claro que a solução racional para o trânsito seria termos pistas exclusivas para veículos de duas rodas, como vi com tanto sucesso no Sul da Ásia; mas o problema de tal proposta é justamente ser racional, e requerer coragem.

O problema do trânsito são os carros. Continuo achando que a diferença entre andar sobre duas ou quatro rodas é a mesma entre andar sobre duas ou quatro patas.

O único problema é que esta m* dói pra c*...

(jul/2005)