sábado, 7 de abril de 2012

Pai Profissional


Um dos mais fundamentais ativos em nossa formação é o Pai Profissional. Tive a felicidade de ter um dos mais espetaculares deste Planeta: FTB, também conhecido como FB.

Iniciei minha carreira profissional como Estagiário de Manutenção em uma enorme fábrica de latas, baldes e tambores metálicos em São Critóvão, no Rio de Janeiro. Após 1 ano fui efetivado como Engenheiro Mecânico responsável pela Oficina Mecânica; e após 1 ano mais fui chamado a ser Assessor do Presidente da Companhia – que tinha 5 fábricas no Brasil – na Matriz, em São Paulo. Considero interessantíssima a história deste convite, mas não irei descrevê-la aqui, devido a minhas características modéstia e humildade. (Sugiro no entanto que você – principalmente em início de carreira – pergunte pessoalmente, pois pode ser bastante útil.)

Nasci para ser Assessor. E lidar diretamente com o Presidente de uma mega-multinacional foi um dos maiores aprendizados de minha vida, pois seu tempo era absurdamente precioso. Eu fazia extremamente complexos e intrincados estudos financeiros de budget, planejamento, projeções, investimentos em novos produtos e linhas de montagem, payback (retorno), capital de giro, etc; mas todas as minhas apresentações a ele começavam pela conclusão. A partir daí, dependendo de seu interesse e disponibilidade eu ia retrocedendo no raciocínio, ampliando-lhe as explicações e a complexidade, até FB se dar por satisfeito (creio que às vezes ele fazia isto apenas para verificar se eu me assenhoreara do assunto). Até hoje acho curiosas e incompreensíveis as apresentações-calhamaço que são feitas aos CEOs atuais: não sei como eles têm tempo e muito menos paciência para assistir àquelas resmas que dissecam com detalhada microscopia os desenvolvimentos dos raciocínios que só interessam aos próprios autores. Não à toa, ao receberem antecipadamente os “prints” de apresentações, muitos Executivos pulam diretamente para as páginas finais, onde estão os “financials”: o nome técnico deste procedimento é “cut the crap”. Ao invés de reclamar, aprenda que 84 telas ultra-sofisticadas de power point não são do interesse do Chefe de seu Chefe (e de ninguém). Isto se estivermos falando de um executivo realmente top, of course.

Sempre me orgulhei enormemente de meus trabalhos. Certa vez apresentei algum mega-complexo estudo cujo sumário estava sintetizado em uma planilha de uma única página com todos os dados que interessavam, elegantemente dispostos e correlacionados. Ele olhou a página por alguns segundos, me devolveu e sentenciou:
- “Falta um dado essencial.”
Com poucos segundos de análise! Voltei para minha sala e passei mais de 2 horas revendo todo o trabalho e principalmente a página de face, mas nada descobri. Voltei à sala dele (envidraçada de cima a baixo e com vista para o enorme pátio ajardinado da Fábrica) e anunciei minha desistência.
- “A data!”, me disse FB. “Falta a data. Sem ela, dentro de algum tempo vou olhar este estudo e não saberei se ele é recente e ainda válido, ou ao menos o quanto ele é atual.”
É claro que jamais esqueci esta lição.

Como minha formação era Engenharia, a Empresa me financiou diversos cursos de Finanças, Contabilidade, Administração, Área Comercial, Inflação e outros. A cereja do bolo seria uma Pós-Graduação com duração de 2 anos. Como se tratava de um curso top extremamente disputado, freqüentei um cursinho preparatório. Fiz os testes de adimssão, e passei para a Pós em 2º lugar entre muitas centenas de candidatos. Orgulhoso, fui dar a boa notícia a FB. Ele viu meu entusiasmo, refletiu... e indagou:
- “E você está satisfeito?”
Depois me parabenizou efusivamente. Mas a lição foi clara e igualmente inesquecível: você pode até estar satisfeito, mas sempre dá para melhorar.

Tive outras grandes influências na vida Profissional, e felizmente ainda mantenho contato com um ou outro guru iluminado. Em comum, a extrema dedicação, a visão filosófica, o altíssimo nível de exigência, o pensamento estratégico e a visão do todo. Além de inteligência superb, mas isto é um pré-requisito mínimo. Mas sempre com uma diferença fundamental: o contato muito menor. Eu praticamente convivi direta e diariamente com FB por 4 anos, e em início de carreira.

Desejo que você tenha a felicidade de ter um fenomenal Pai Profissional. Que aprenda com ele. Ou que, estando do outro lado, se preocupe em transmitir conhecimento, orientação, rumo e visão filosófica aos padawans que te cercam.

Minha gratidão ao fundamental FTB.


(abr/2012)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ouvidos Moucos

 
Dizem que os homens fazem qualquer coisa para ouvir “o tilintar das moedas, as palmas de seus semelhantes e os gemidos das Mulheres”.

De minha parte, estou pouco me lixando para o tilintar das moedas ou as palmas de meus semelhantes!

(abr/2012)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Apelidos Genéricos


Confesso minha enorme dificuldade com apelidos genéricos, ou seja: aqueles que são usados por todos, indiscriminadamente e sem a menor criatividade. Entendo um apelido com origem pessoal ou particular, como por exemplo alguém chamar um Pedro de “Potamus”. Mas daí a todo mundo passar a chamá-lo de Potamus, não me faz o menor sentido.

O pior é quando somos apresentados a um apelido:
- “Este é o Lico.”
Porra, eu nem conheço o cara e já vou ter que chamá-lo de “Lico”?!? Tenha paciência!

Ou então em sérias reuniões de trabalho, onde ficam todos se chamando de Cadu, Jô, Má, Vi ou que outros raios os partam. Reunião de trabalho, galera! Não é rodinha de biriba no Clube!

Ainda por cima eu gosto dos nomes próprios, que sempre são bem mais bonitos do que os apelidos. Em São Paulo há um pieguíssimo hábito de chamar as pessoas pela primeira sílaba de seus nomes: Rosana vira “Rô”, e Juliana se transforma em “Jú”. Você está em um ambiente de trabalho e ouve alguém chamando “Má”, e não sabe se estão convocando o Marcos, o Marcio, o Marcelo, a Marcela ou a Macaca. Os Pais passam meses quebrando a cabeça escolhendo um nome, para ele virar uma sílaba???

Alessandra sempre me dava carona tarde da noite, após as aulas de Mestrado. Certa vez ela desabafou:
- “Só existem duas pessoas no Mundo que me chamam de ‘Alessandra’: Mamãe quando está brava; e você!”


(05/abril/2012)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Os Táxis e o Ar Condicionado


Depoimento de um usuário freqüente de táxis tanto no Rio como em São Paulo: ao menos uma diferença é escancaradamente evidente entre os motoristas das duas cidades (além dos preços, é claro).

No Rio você entra em um carro de praça e nem precisa perguntar ou solicitar: o ar condicionado já está ligado.

Em São Paulo, mesmo no ápice do verão está sempre aquele calor monstruoso e abafamento terrível dentro do carro, o que leva nosso depoente a indagar ainda antes de indicar o destino:
- “Tem ar condicionado?”
Se não tiver – ou se estiver quebrado, uma desculpa bastante comum – ele nem mesmo chega a sentar, e se retira do veículo no mesmo instante.

O passageiro costuma inclusive manifestar sua incredulidade para alguns motoristas: não é pelo cliente, que passa apenas 10 ou 15 minutos dentro do carro; é pelo conforto de vocês mesmos! Passar o dia inteiro dentro daquela fornalha???

Certa vez um taxista contou que quando fica com o ar condicionado ligado recebe críticas de seus colegas:
- “Está acostumando mal os passageiros!”

Então é isto! Uma economia de 10% é mais importante do que 100% de conforto!

Mas talvez isto não seja uma exclusividade dos motoristas de táxi. Afinal, a vida em SP tem se tornado cada vez mais estressada, engarrafada, angustiante, insegura, desrespeitosa.

Porquê então insistimos tanto em manter nossos ares-condicionados pessoais desligados? O que nos leva a ficar presos a um aglomerado assim?

É claro que cada um tem o seu motivo.

Assim como os motoristas de táxi.


(mar/2012)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Matusa


Um Amigo comenta existir um ditado chinês que sentencia que “a idade de um homem é a idade de sua coluna vertebral”.

Neste caso, neste final de semana pulei de 55 para 712 anos de idade!

(abr/2012)

domingo, 1 de abril de 2012

Eu quero este problema!

Eles estavam em Rotorua (NZ), e encontraram uma grande loja de graciosas roupitchas femininas para uso doméstico. Era tudo de extremo bom gosto: peças leves de toque agradabilíssimo com criatividade e ótimos preços; um sonho. Ela pegou uma dúzia de ítens e os experimentou, depois mais uma dezena, depois mais alguns e então outros mais; porém até mesmo as peças pequenas eram grandes, e todas ficavam folgadas nela.

Ele ficou algo constrangido com a quantidade de peças que ela pegava (todas lindas!) e experimentava sem eleger nada, devolvendo tudo no atacado. E foi se desculpar com a Vendedora:
- “There is a problem... all of them are big for her!”

A simpática Vendedora retrucou com um sorriso:
- “I wish I had this problem!”


(mar/2012)

sábado, 31 de março de 2012

Os Desalmados


A idéia de nós, Humanos, termos cada um uma Alma individual não resiste à análise da Criônica, ou “criopreservação de longo prazo” (usualmente confundida com Criogenia). É uma pena, pois a mim (a todos nós) o conceito de Alma era extremamente agradável; mas teremos que aprender a viver sem ele.

Criônica é, segundo definição na Wikipedia, “o processo de preservação em baixas temperaturas de humanos e outros animais que não podem mais ser mantidos vivos pela medicina contemporânea, na esperança de que a cura e reanimação sejam possíveis no futuro”. Diz-se – o que é largamente refutado – que o corpo de Walt Disney estaria em uma câmara criogênica desde sua morte em 1966. Suponhamos que sim, apenas como exemplo. Onde estaria sua Alma durante todo este tempo? Esperando para saber se ele será revivido? A Alma fica circulando por aí, até que a Medicina decida por sua alforria? “OK, este não vai dar para reviver; vamos desligá-lo.” E então a Alma aliviada poderia enfim seguir seu curso – após esperar inutilmente quase 50 anos por uma decisão dos médicos!
- “Ei, Doutor, estou esperando! Posso ir embora?”

Ou ao contrário: a alma do elemento crionicado vai embora... e de repente é chamada de volta:
- “Ooops, o cabra foi restaurado. Volta lá, correndo!”

Ou ainda uma terceira alternativa: a Alma se vai, e o corpo acorda sem uma! E uma vez que a memória ficou retida no cérebro restaurado, o coração voltou a bater e a circular sangue, e a máquina funciona novamente, o pobre coitado se torna um zumbi sem Alma; um personagem de Crepúsculo!!!

Infelizmente a única conclusão lógica é: não existe esta invenção feita por nós mesmos, com o objetivo de nos dar o conforto da garantia de existência de um confortável Além. 

É curioso que consigamos ser tão racionais quanto à inexistência de uma “Alma” quando analisamos os seres que chamamos de “Irracionais”, e tão irracionais quando analisamos os que chamamos de “Racionais”...

Sem Alma, o que seríamos então? A resposta é ainda mais simples: somos células de Deus. Cada um de nós – racionais ou irracionais – é uma fagulha do Todo; do Divino.

Mas esta é uma outra história.

Namaste!


Nota: A falha neste raciocínio é o pressuposto da linearidade do Tempo. Isto por sua vez é vinculado a nossa limitada percepção - e conseqüente incapacidade de compreensão - do que efetivamente seja o Tempo.

(mar/2012)

sexta-feira, 30 de março de 2012

A lógica do futebol brasileiro


Classificação da Taça Guanabara 2012:
Vasco da Gama – 21 pontos (7 jogos, 7 vitórias)
Botafogo – 15 pontos
Flamengo – 15 pontos
Fluminense – 13 pontos
Campeão: Fluminense!

Repetida e exaustivamente vemos no Brasil campeonatos de futebol nos quais o melhor time – por motivos diversos – não é o Vencedor.

Isto se deve a um tipo de raciocínio pequeno e de curto prazo bem típico de gente subdesenvolvida.

Não é sem motivos que somos cada vez menos importantes e respeitados neste campo.

Estar em 6º lugar no ranking da FIFA é muito mais do que merecemos.


(março/2012)

domingo, 25 de março de 2012

Análise Grafológica


O aumento descontrolado da população do Planeta – baseado em uma (bio)lógica que privilegia a quantidade, e não a qualidade; que enaltece o curto prazo da Raça Humana, e não o longo – conduz a uma inevitável pasteurização das massas. Torna-se mais importante uma vida simples que seja acessível aos 7 bilhões do que o aprimoramento e aprofundamento da cultura. Infelizmente, somos forçados a nivelar por baixo.

Um recente sinal desta forma de involuir a Raça é a tendência ao término do ensino da Caligrafia, ou letra cursiva. Aparentemente, em um futuro próximo somente será ensinada a letra de forma, ou as maiúsculas. Vários motivos respaldam tal regressão: facilidade de compreensão por pessoas que falam outras línguas, a péssima caligrafia de muita gente (a maioria), padronização, etc. Sem questioná-los, atenho-me aqui apenas ao aspecto romântico desta perda.

Sempre gostei de escrever à mão, e graças a isto muitos conhecidos consideram erroneamente que sou um apaixonado por canetas: não sou. Gosto de canetas por serem um instrumento ou meio para a caligrafia pessoal, da qual muito me orgulho; um prazer que será negado às gerações futuras. A Caligrafia voltará a ser privilégio de monges encastelados, ou um hobby de vetustos senhores – ou seja, eu mesmo.

No início dos anos anos 90, como parte do processo de admissão a uma grande Empresa, fui submetido a uma Análise Grafológica. Posteriormente, já como parte integrante do quadro de funcionários, infernizei a vida de uma Psicóloga do RH até conseguir acesso àquela análise. Sendo um apaixonado por Caligrafia, eu tinha que saber o que a minha dizia a meu respeito!

Apresento a seguir o texto, não como autopromoção mas sim como uma utopista defesa à Caligrafia; por considerá-lo uma das melhores análises já feitas a meu respeito (fora o Teste Vocacional quando tinha 16 anos de idade, é claro). É impressionante como se pode dissecar alguém através de sua letra; é inacreditável que alguém possa ter ido tão fundo olhando apenas a escrita, sem jamais ter conversado ou mesmo visto a pessoa. Note-se que a análise não se destinava a ser lida pelo analisado, mas sim exclusivamente pela Empresa; não tinha, portanto, nenhum interesse em impressionar o Objeto da mesma forma que tantas outras como alguns horóscopos, etc.

Lembro-me ter escrito algo comparando as coisas que gosto àquelas que não gosto. Transcrevo o texto ipsis litteris mantedo a grafia original, mesmo discordando de uma ou outra utilização de vírgulas, etc. O original é datilografado. Meu agradecimento àquela Psicóloga por me ter propiciado o acesso a esta Análise.


“Personalidade muito mais forte do que parece e bem dotada em muitos aspectos. Ótimo equilíbrio, não dispensando, no entanto, o uso do eficaz autocontrole mas permitindo um estado normal de reduzida tensão.

O Sr. Panda é um homem decidido, que sabe o que quer e que, com firmeza, determinação e sem atropelos, segue o seu caminho apesar dos obstáculos. É autêntico e parece estar em paz consigo e com a vida.

Vivas sensibilidade e emotividade dominadas com certa facilidade.

Respeito não incondicional às normas em vigor.

Bom nível de segurança.

Maturidade condizente com a idade.

Elevado autoconceito, baseado, certamente, na consciência do próprio valor, e grande preocupação com a impressão causada. Imagem projetada vistosa e arrojada, irradiando força e necessidade de afirmação. Autocrítica bastante desenvolvida e atuante.

Extroversão menor do que parece. Pessoa reservada quanto à vida pessoal e de fácil comunicabilidade. Relacionamento fácil, discreto e, certamente, agradável, com tendência para um profundo envolvimento por parte do Sr. Panda. Sociabilidade natural e cultivada. Certa agressividade latente. Integração verdadeira provavelmente lenta e difícil nos meios em que vive, podendo, porém, tornar-se intensa em certos casos.

Expressão verbal muito clara, fluente e desembaraçada, um dos grandes trunfos desta personalidade.

Impulsividade mais canalizada do que contida.

Eficaz domínio sobre as atitudes e palavras.

Ótimos dotes para a ordem e organização aplicados sistematicamente.

Excelente grau de eficiência – o Sr. Panda não desperdiça a sua energia.

Boa capacidade para chefia.

Atividade fluente, constante e muito disciplinada.

Dinamismo e energia maiores do que parecem e, geralmente, sob controle.

Ambição bastante desenvolvida.

Inteligência viva e profunda ao mesmo tempo. Invulgares agilidade e flexibilidade mental. Notável poder de concentração. Consideráveis lucidez e sensatez. Julgamento normalmente objetivo.

Ativa força de vontade favorecendo a constância, a persistência e a tenacidade. Combatividade, iniciativa e audácia temperadas pela prudência.

Grande, profundo e requintado orgulho exercendo uma forte influência no comportamento do Sr. Panda e incentivando a sua ambição e vontade de lutar. É, por isso, um fator positivo.

Conclusão: valioso elemento, muito ativo e esforçado, empreendedor e, certamente, responsável.


(Nota: considero “respeito não incondicional às normas em vigor” a melhor frase já escrita a meu respeito. Adoro também “extroversão menor do que parece”: eu só finjo que não sou tímido!)


(mar/2012)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Vidas Descartáveis


Comento com uma jovem Avó a respeito das (para mim) extremamente fúteis e vazias vidas que boa parte dos Adolescentes levam atualmente. Esvaem seus tempos em programas que ignoram as fronteiras da boçalidade: Pânico na TV, Big Brother, Ultimate Fighter, a profusão de partidas de futebol de campeonatos inglês-espanhol-italiano-alemão e até o Brasileiro, mesas redondas, videogames de pancadaria ininterrupta, e muitos etcs até um quase-desligamento de suas sinapses (*).

A jovem Avó pensa em seus netos, e responde:
- “Os jovens de hoje levam vidas descartáveis.”

Me remete a algo que li ou ouvi: os jovens sempre deram mais importância à opinião das pessoas de sua faixa etária do que à dos mais velhos. No entanto, no passado eles tinham pouca exposição ao convívio dos demais manés da mesma idade: se encontravam na escola, em algumas atividades fora do colégio e de casa... e pronto. Na maior parte do tempo estavam com gente adulta, saíam com seus Pais, ou seja: ouviam, aprendiam e se desenvolviam com a experiência dos mais experientes.

Atualmente a juventude passa muito mais tempo na rua, plugados, antenados, se comunicando via messengers, torpedos, redes sociais, caralivros, celulares. A convivência com os mais vividos – e conseqüentemente sua influência – reduziu barbaramente. O resultado é óbvio: sem referência daquilo que já foi vivido, experimentado e testado alguns milhões de vezes, o jovem de hoje passa a vida empenhado em inventar o isqueiro – sem cair em si que está desperdiçando seu tempo para descobrir o que já existe; perdendo tempo que lhe deveria servir para seguir em frente. Ao invés de embarcarem no trem-bala da História, optam por puxar-lhe a carroça.

Talvez seja este o grande desafio do jovem atual: a coragem de passar por cima de seus semelhantes – que nada sabem, assim como eles – e se aplicar a um modelo de dedicação, esforço, humildade e aprendizado que valerá o escárnio por parte dos brothers manés preguiçosos: afinal, “a desgraça ama companhia”. Enfrentar a preguiça e a comodidade dos imbecilérrimos programas que demandam inteligência parca e que nada acrescentam ao inculto que os assiste – ou pior, acrecentam envelhecimento inútil à própria existência. Menos vida a usufruir, sem qualquer retorno; sem mais nada.

Cuidar para não se tornar uma Pessoa que pouco ou nada tem a acrescentar, a não ser o próprio deslumbramento com descobertas há muito ultrapassadas.

Cuidar para não escorregar para uma vida descartável.


 (*) © Calvin

(mar/2012)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Idade de Celotex

Eu já tinha de meio século de vida.

Recebi um telefonema de RDu. Eram cerca de 20 horas e eu estava no Banco, trabalhando. O que me valeu o seguinte comentário por parte do Amigo:
- “Você não está mais em idade de estar trabalhando às 8 da noite. Está em idade de estar jogando botão às 6 da tarde!”

(mar/2012)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Tá namorando?


Ele gostava de perguntar às pessoas:
- “E aí, tá namorando?”
Todos o olhavam com cara de “que abelhudo!”, mas ele considerava não haver informação mais importante ou pertinente do que esta para se saber a respeito de um Amigo ou Amiga.

Em sua visão pessoal, “namoro” significava “indisponibilidade”. Estar comprometido, seja lá qual o tipo de compromisso.

Mas o conceito de “Namoro” mudou com o passar do tempo. Antigamente – há uns 30 anos – quando se queria dizer que um relacionamento não era sério (no sentido compromisso-a-longo-prazo), se dizia:
- “Ah, não é nada sério, estamos só namorando...”

Atualmente as coisas mudaram (muito), e a coisa mais difícil de se ouvir é “estamos namorando”. E ao perguntar:
- “E aí, tá namorando?”
, em geral passou a ouvir um indignado:
– “Quêisso, tamos só ficando!!!”

Namoro agora era coisa séria!...

Até que ouviu uma definição perfeita do que vem a ser a “coisa séria” atualmente:
- “Namoro é quando você beija de dia!”

 (mar/2012)

domingo, 18 de março de 2012

Deus é Fiel


A Natureza já teve milhões de anos para aprender que a proporção 1 macho para 1 fêmea não é necessária – pelo contrário, é contraproducente.

O objetivo essencial (e irracional) de uma espécie é crescer e multiplicar-se para dominar o máximo de território possível. Ora, para que uma raça cresça e se multiplique será muito mais eficiente se existirem 10 – ou mesmo 100 – fêmeas para cada macho. Afinal, enquanto a fêmea está prenhe (ou “ocupada”, como se diz no Nordeste), o macho passa um longo período de absoluta inutilidade biológica. Caso passasse este período fecundando outras fêmeas, a raça progridiria com rapidez exponencialmente maior.

Assim, se para cada 100 indivíduos nascidos tivéssemos 98 fêmeas e 2 felizardos, a raça se multiplicaria com muito mais eficiência do que com o tosco equilíbrio 50/50. No entanto, isto não acontece.

Por quê será, considerando-se que a Natureza sempre foi pródiga em encontrar as formas mais eficientes de ocupação e adaptação?

Só consigo encontrar uma única explicação para este fato: Deus existe.

Existe, e interfere na Natureza.

Existe, interfere na Natureza... e é monogâmico!


(mar/2012)

sábado, 17 de março de 2012

Ricota gosta de Picanha


No final dos anos 70 os muros do Rio ficaram cobertos por um grafite que proclamava: “Celacanto provoca Maremoto!”. Era grafado sempre da mesma forma, e em locais estratégicos da cidade. Foi um mistério que perdurou por muito tempo, mas cuja origem era evidente para quem assisitiu National Kid nos anos 60. Mas isto já é uma outra história.


Eles se conheceram no trabalho em São Paulo no início dos anos 90, e ficaram Amigos. Um era carioca e tinha estudado na PUC-RJ, onde a história do Celacanto era tremendamente famosa. O outro era paulista. Com o passar do tempo, o carioca notou que o paulista fazia bastante sucesso com as Mulheres, e um dia lhe perguntou qual era a causa.
- “É simples”, respondeu o Amigo. “Quando tomo banho eu não lavo bem o pau, e fica um pouco daquela sujeirinha – aquele ‘queijinho’ – em volta da cabeça do animal. E mulher adora isto, daí o meu sucesso!”

Ao ouvir tal explicação, o carioca imediatamente apelidou o don juan paulista de ‘Ricota’.

Mais alguns meses, e nova observação: o questionador observou que Ricota usualmente se fazia acompanhar por Senhoritas mais... “fornidas”, e novamente foi questionar seu Amigo.
- “É, eu gosto de carne com uma gordurinha!”, retrucou o outro. (Anos depois o questionador ouviria esta frase em outra forma: “mulher boa é aquela que enche a cama!”, aparentemente um ditado com origem nas arábias.)

Imediatamente foi cunhada a expressão “Ricota gosta de Picanha!”, que passou a ser espalhada pela Empresa onde os dois trabalhavam. Papéis com a frase no mesmo formato do “Celacanto” original apareceram por todo lado. Mas como muitos anos haviam passado, a cidade era outra e a nova frase nada tinha a ver com a original, evidentemente ninguém entendeu nada. E aquilo se tornou uma “private joke” entre os dois.


Esta lembrança é uma homenagem ao Amigo que, passadas duas décadas, continua barbarizando com as Picanhas. Pelo jeito, a ricota continua fazendo sucesso!


(mar/2012)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Menino Prodígio

Mamãe conta a seguinte história, que se passou entre 1968 e 1969, quando eu tinha 12 ou no máximo 13 anos.

Numa tarde em um final de semana, a Família foi ao Cinema São Luiz no Largo do Machado no Rio para assistir “Os Seus, Os Meus e os Nossos” (“Yours, Mine and Ours”) com Lucille Ball e Henry Fonda. O São Luiz era um cinema imenso, como só existia antigamente (ou atualmente, porém fora do Brasil), mas em se tratando de uma comédia familiar em uma tarde de final de semana, estava completamente lotado. Acabamos nos sentando separados, e eu fiquei distante do local onde Mamãe se sentou.

A história do filme é sobre um viúvo com 10 filhos que se casa com uma viúva que tem 8 filhos. Evidentemente a balbúrdia se estabelece, com guerra entre as 18 crianças, bagunça, tumultos, etc. A alturas tantas, no meio da sessão e com o vozeirão de 12 anos, eu berrei:
- “MAMÃE! É POR ISTO QUE EU NÃO VOU ME CASAR!!!”

Ela conta que o cinema quase veio abaixo com as gargalhadas!


Passadas mais de 3 décadas, me mantive fiel àquela diretriz. Recentemente Madame veio a saber desta história, e comentou:
- “Nossa, você já era traumatizado nesta idade?!?...”
- “Negativo!”, retruquei. “Eu era um menino prodígio!”


(mar/2012)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Feijoada com pinças

Ficarei surpreso se alguém conseguir explicar o motivo das carnes de uma feijoada precisarem ser pegas com... conchas!

Sim, a concha é útil e necessária para pegar o próprio feijão. Para isto, é suficiente que a cumbuca com o feijão tenha a seu lado uma concha. Já as demais travessas – com lingüiça, lombo, carne seca, etc, boiando ou afogadas no feijão – podem e deveriam ser servidas com pegadores, e não com conchas. O que acontece é que cada vez que a pessoa se serve de orelhas, pés e rabo de porco utilizando uma concha, compulsoriamente vai junto para seu prato um monte de caldo e caroços de feijão que não eram necessariamente desejados. Fora a dificuldade de escolher e pegar as carnes. E a sujeirada!

Façamos assim: quando for servir feijoada, coloque pegadores – ou pinças – na mesa para que seus convidados se sirvam das carnes. Junto à cumbuca do feijão, aí sim, coloque uma única concha.

Isto vale também – e principalmente – para Restaurantes, por favor.


(Nota: como como em média uma feijoada a cada 6 meses, esta medida tem uma tolerância de 5 meses e 29 dias para ser implementada.)

(mar/2012)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ultrapassagem pela Direita

Não tem qualquer resquício de inteligência a legislação que multa veículos que ultrapassam pela direita em rodovias.

A obrigação de qualquer motorista é dirigir pela direita, utilizando a pista esquerda somente para ultrapassagens. Feita a ultrapassagem, o motorista deve retornar para a pista à direita.

Imagine a situação: uma estrada com limite de velocidade de 100km/h; você está na pista direita a 80km/h, e um pouco à frente e à esquerda segue um imbeciliota a 60km/h. ATENÇÃO: pela legislação de trânsito, você não pode prosseguir!!! Está abaixo do limite de velocidade, está na pista da direita – a correta – mas não pode prosseguir! Você precisa:
i) reduzir a velocidade;
ii) passar para a pista à esquerda, atrás do imbeciliota;
iii) piscar o farol para ele, que está a 60km/h;
iv) dar seta à esquerda pedindo passagem; e
v) se aproximar, até que o imbeciliota se digna a muito lenta e mal-humoradamente sair para a pista à direita. É o fim da picada: você estava fazendo tudo certo, e é forçado pelo código de trânsito a ser prejudicado por um imbeciliota que estava fazendo tudo errado – e sem que ninguém ganhe absolutamente nada com isto!

Não faz a menor diferença estar no limite de velocidade daquele trecho da estrada; isto não gera um “direito” de seguir pela pista à esquerda. Ninguém é guarda, regulador ou limitador de trânsito; se o outro motorista quiser ir acima da velocidade máxima – talvez por ter uma Mulher dando à luz no carro, ou por estar transportando algum acidentado, ou mesmo por ser um daqueles completos idiotas que acham que “dirigir bem é correr” – o problema é dele. Se não estiver ultrapassando, ninguém tem o direito de – e nem motivo para – dirigir à direita e atrapalhar os outros.

Note-se que não estamos defendendo as ultrapassagens pela direita, mas sim que o responsável por elas é outro. O correto e racional seria que quem é ultrapassado pela direita fosse multado. Com isto, nunca mais teríamos imbeciliotas dirigindo desnecessária e morosamente pela pista da esquerda.

É tão simples.

Tão óbvio.

Tão completamente óbvio.


(mar/2012)

sábado, 3 de março de 2012

30 anos em 2 Rodas

Em março/2012 estou completando 30 anos de moto.

A primeira foi comprada graças a um coração partido (aliás, o parapente teve a mesma causa) (embora por outra causadora). Heartbroken no final da tarde de uma 6ª feira, eu voltava do trabalho na RHEEM em São Cristóvão na garupa do Roxo. Trânsito INFERNAL no Viaduto Paulo de Frontin (quase um Minhocão no Rio). Seguíamos tranqüilos pelo acostamento quando passamos por uma varanda onde uma Deusa apareceu enrolada somente em uma toalha, com os cabelos molhados. Dava para ver as gotículas d’água nos ombros desnudos, o Roxo enlouqueceu! Seguiu até o final do viaduto, deu uma “quebrada” à direita para evitar a entrada do Túnel Rebouças, contornou-o por cima da boca de entrada, voltou todo o Paulo de Frontin por cima do Rio Comprido, fez retorno no início da Francisco Bicalho, atravessou mais uma vez o Viaduto, e menos de 10 minutos depois daquela visão quase fantasiosa lá estávamos de frente para a toalha felpuda. Saltamos da moto fingindo que procurávamos alguma coisa no acostamento do viaduto (como os homens são ridículos) e o Roxo foi puxar papo com a moçoila limpinha. Ou seja, o que era um trânsito pavoroso para milhares de carros não significava absolutamente nada para uma moto! O Roxo foi rechaçado pela Deusa, mas decidi a compra na mesma hora.

Eu tinha 25 anos e desde sempre quisera ter uma moto, apesar da resistência ferrenha dos Pais e Avô. Chegando em casa naquela noite de 6ª feira, comuniquei:
- “Papai, vou comprar uma moto amanhã e gostaria de contar com seu suporte na negociação. Me acompanha?”
É claro que o Papai foi junto.

Meu Avô também sempre se opusera ferozmente a meus devaneios de compra de moto, afirmando peremptório:
- “Quando comprar moto não entra mais na minha casa!”
Quando voltei com o Papai na manhã de sábado após a compra da Yamaha RX180 (a mesma moto do Roxo), fui direto para a casa do Vovô, e anunciei da porta:
- “Vovô, comprei uma moto! Posso entrar?”

O Roxo tinha comprado sua RX180 umas duas semanas antes, e corajosamente (ou loucamente) a emprestou a mim no dia da estréia. Era alta madrugada em Botafogo (onde ele tinha um Restaurante), e fui dar uma volta no quarteirão. Parei em um sinal, duas da manhã, tudo deserto, silêncio e eu. Dois caras esquisitos se aproximam. Fico nervoso, tento sair apressado avançando o sinal, deixo um pé no chão como “garantia de equilíbrio”, a moto roda em volta de meu próprio pé (que mané!), e PLAFT no chão!!! Os dois caras esquisitos que eu temia se chegaram, e ajudaram a me erguer e à moto...

E ainda devolvi a moto ao Roxo em seu primeiro dia com seu primeiro tombo...

Algumas estatísticas destes 360 meses:

·         50 mil quilômetros rodados
·         3 motos (Yamaha RX180 1982, Honda CB400 1982, Falcon NX400 2004)
·         1 acidente sério (embora estivesse a baixa velocidade)
·         3 tombos no trânsito
·         cerca de 15 tombos ridículos (postos de gasolina, estacionamentos, parado em sinais fechados, etc)
·         nenhum retrovisor quebrado.

E muitas caronas felizes. Por mais que se possa afirmar em contrário, jamais encontrei uma Dama que se recusasse a andar de moto. Muito pelo contrário: Mulheres ADORAM moto!

E eu também!



(mar/2012)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Empoderamento

Somos nós que decidimos quem tem poder sobre nós.

O Chefe manda um Subordinado fazer alguma coisa errada, ou que ele não quer, ou não concorda. E arremata:
- “Se você não fizer, eu te demito!”

A partir daí, existem duas alternativas:

(“Não posso ser demitido.”)
- “Tá bom, Chefe, eu faço.”
E o Subalterno faz, emburrado e de má vontade.
Neste caso, o Chefe tem Poder sobre o Funcionário.

OU:
- “Dane-se, Chefe, pode me mandar embora, estou pouco me lixando. Mas isto eu não faço!”
Neste caso, o Chefe não tem poder sobre o Funcionário.

Note-se que a situação é exatamente a mesma; foi a reação diferente do Subordinado que determinou o poder – ou não – do Chefe.

Cuide portanto para não meter sua vida em situações nas quais você seja forçado a empoderar gente que te manda fazer coisas erradas, ou que você não quer fazer, ou não concorda.

De quanto menos coisas formos dependentes, menos pessoas terão poder sobre nós.

Sobre você.


(mar/2012)

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Inveja é uma Reforma Abortográfica

Era uma vez um dicionarista que tinha inveja de outro Dicionarista, que era muito mais famoso do que ele.

O que mais corroía o dicionarista era a substantivação do nome do outro, o fato de seu prenome ter se tornado nome comum: um sinônimo da própria palavra 'Dicionário'.

Mais preocupado com a vaidade do que com o bom senso ou o respeito a sua língua-mater, ele arquitetou uma forma de suplantar a fama do outro. Inventou uma reforma abortográfica, e preparou um dicionário – que levava seu próprio nome na capa, é claro – que contemplava de antemão as modificações que desejava impor. O fato de ser completamente descabida não lhe fazia a menor diferença: quando a reforma fosse aprovada, o dicionário com o seu nome passaria a imperar como referência abortográfica. E ele se lançou tenaz à tarefa de aprovar seu estrupício.

Tarefa esta que se revelou bem mais difícil do que o esperado – o que era explicável pelo fato de se tratar de uma proposta que afrontava a erudição e a inteligência. Por exemplo, a exclusão do acento diferencial na palavra ‘pára’, diferenciando o verbo da preposição. A publicação de uma matéria com o título “Novo goleiro para o Corinthians” no caderno de Esportes do jornal O Estado de São Paulo deixaria o leitor na dúvida: um novo goleiro teria parado o “todo-poderoso”? Ou teria sido contratado um novo goleiro para o “timão”? Com a reforma abortográfica proposta, até um não-corinthiano teria que ler a matéria para saber o que estava acontecendo. A oração deixava de ser auto-explicativa!

Ou então o surgimento de “vogais-excrescência”: com a absurda abolição da maioria dos hífens, palavras como ‘moto-serra’ passariam a ser grafadas ‘motosserra’. A separação das silabas evidencia o descalabro: mo-tos-ser-ra. “Tos”? De onde vem este “tos”, que não existia em nenhuma das duas palavras originais???

Também o desaparecimento de alguns acentos – mas não todos – sem qualquer lógica ou regra defensável, mas com base em uma profusão de exceções, causou asco a quem se aprofundava no conteúdo da Reforma.

Mas a cereja do bolo fecal era a proposta de fim do trema. O trema não é um acento, mas sim um indicativo de pronúncia. Assim, não faz qualquer sentido incluir sua exclusão em uma reforma abortográfica. E mais, tal exclusão representava muito mais do que um condenável empobrecimento da língua: criava uma impossibilidade de se saber qual a correta pronúncia de diversas palavras.

Dada a completa estupidez da proposta, o tempo passou além do que o dicionarista esperava, e ele acabou morrendo. Mas aquele rebento confuso e disforme continuou se movendo nas bureaucracias daquele País, e – dada a completa estupidez da proposta – acabou indo bater nas mãos do Presidento. Ora, tratava-se de um Presidento de reconhecida ignorância e preguiça, que já chegara até mesmo ao absurdo de afirmar na abertura de uma Bienal do Livro que “ler um livro dá uma preguiça...”! E o Presidento, com seu objetivo pragmático de nivelar as coisas por baixo e deixar tudo mais fácil para os incultos ignorantes preguiçosos, acabou por aprovar a Reforma Abortográfica. Ficou uma herança maldita para os habitantes tanto daquele País como dos demais que porventura usassem a mesma língua.

Alguns escritores puristas e autores de Blogs – como “Uma Toupeira Em Netuno”, por exemplo – optaram por se manter fiéis à muito mais inteligente ortografia anterior. Tinham consciência de estarem se prejudicando, pois em breve seriam encarados como dinossauros que só faltavam escrever ‘Pharmácia’, ‘insecto’ ou ‘pateo’ por exemplo. Mas se ofereceram em sacrifício, tanto como uma homenagem aos tempos de pessoas mais cultas como aquele Dicionarista original como também como resistência ao ininterrompível avanço da mediocridade. Afinal, como disse Marcelo Nova, “tem que ter cultura pra cuspir na escultura”.

E todos viveram infelizes para sempre.


Disclaimer: os personagens desta parábola são fictícios. Qualquer semelhança com qualquer pessoa real da qual você tenha notícia... a responsabilidade pela inferência é sua!


(fev/2012)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Os Anjos da Guarda

É fácil identificar os Anjos da Guarda. Eles são zelosos e se manifestam de vez em quando, com elegância e discrição. Mas não é difícil reconhecê-los quando se está com os olhos – e a mente – ligados.

Meu muitíssimo obrigado a vocês, sem quem em alguns momentos precisos a dinâmica de nossas vidas não seria possível.

De vez em quando algum é forçado a aparecer “out of the blue”, quando se faz inesperadamente necessário. Quem sabe uma experiência escancarada no Caminho de Santiago. Ou talvez um outro sendo obrigado a interferir / aparecer / se revelar / se desmascarar, ajudando a ressuscitar uma moto “dropped dead” no meio do nada em um final de semana.

É esta nossa função: sermos Anjos da Guarda uns para os outros.


(fev/2012)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Você vê TV?

Gosto de ler, ouvir música, passear de moto, viajar, ir ao cinema, e – obviamente – escrever.

A televisão ocupa posição para lá de terciária em minha escala de prioridades. E assim passei um longo período – vários anos – sem ter uma.  Até que um dia minha Mãe tomou as dores e me deu um aparelho, considerando que se acontecesse alguma coisa importantíssima eu não poderia “ficar fora do mundo”. Fazia sentido; aceitei o presente, e coloquei a TV na sala.

O tempo passou, e eu continuava sem ver TV. Achei então que o motivo era o fato da peça estar na sala:
- “Se fosse no quarto eu veria muito mais”, raciocinei. E comprei um aparelho que ficou aboletado na estante em frente a minha cama.

Mas nada ainda de ver TV.

Mais um tempo, e em uma viagem aos EUA encontrei uma mini-TV com 5 polegadas, baratíssima! E imaginei: se esta TV estivesse no banheiro eu poderia vê-la durante as abluções matinais ou toaletes vespertinas. A solução para o problema! Bem-intencionado, trouxe o trambolhinho em um vôo internacional.

Neca.

Desisti então de me forçar a ver TV. Mas a partir daí as pessoas que iam a minha casa passaram a comentar:
- “NOSSA, como você vê TV! Tem em todo canto! Até no banheiro!!!”


(fev/2012)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Duas possibilidades

O quê você considera que tenha mais chances de acontecer?

Subitamente tudo congela; uma parede se abre, o cenário se apaga, as pessoas desaparecem, e um Ser surge para você e diz:
- “OK, seu teste acabou, seu exercício acabou, sua simulação acabou. Estes são os seus resultados, e a avaliação de tudo que você fez nos últimos 20 / 40 / 60 / 80 anos. E seu diagnóstico. E seu Destino.”

OU:

Subitamente a Terra é invadida. E da mesma forma que o Homem sempre escravizou / dominou / destruiu raças mais fracas ao encontrá-las, nossa Raça também é escravizada / dominada / destruída. E não podemos reclamar de nada.

Para ambos os casos, considere este texto um aviso.


(fev/2012)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

As Pastorinhas

Estou em um hipermercado com música ambiente. Os alto-falantes começam a tocar:

”A estrela d’alva / no céu desponta /
(...) e as pastoriiiinhas, etc”

Um som tremendamente chato!

Perto de mim, um Senhor bastante idoso pára e começa a prestar atenção na música. Fico imaginando que esteja embevecido, prestando atenção, saudoso  e recordando os “bons tempos”. Então ele se vira para mim, e fala peremptoriamente:
- “Esta música... É MUITO CHATA!!!”

Ele se vira e se afasta. E agora sou eu quem fica parado, completamente supreso e sem ação ante o inesperadíssimo depoimento...


(fev/2012)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Por Minha Máxima Culpa

Não admiro quem só reclama.

Passamos nossas vidas ouvindo gente reclamar. Você liga o rádio e se satura de pessoas que consideram que estão cumprindo seu dever cívico ao apontar alguma falha. Acham que por ter reclamado já fizeram a sua parte. Interferir para consertar o erro? Ah, isto dá trabalho! Isto é com o Governo. É com o Síndico. É com algum Responsável. É com os Outros. Eu já reclamei, e portanto já fiz muito; já fiz a minha parte.

Qualquer um pode reclamar, “talk is cheap”: não exige qualquer preparo. A primeira coisa que um bebê faz na vida é reclamar. E passa os anos seguintes – às vezes a vida toda – reclamando.

Não, eu não admiro quem só reclama. Admiro quem age, admiro quem faz. Quem toma atitudes para corrigir o malfeito. Quem se mexe. Não admiro quem reclama do barulho da obra no terreno ao lado na tarde de domingo, mas sim quem liga para a Polícia e registra uma queixa. Não admiro quem reclama da lixeira do prédio novo em sua rua estar chumbada no meio da calçada, mas sim quem registra isto na Prefeitura e consegue a correção. Não admiro quem fica resmungando que os vizinhos no cinema estão falando alto e sem parar, mas sim quem se dirige a tais vizinhos e diz: “vocês estão sendo desrespeitosos”.

Já fui extremamente crítico quanto à expressão “por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”, por julgá-la um incentivo exacerbado à auto-recriminação paralisante e um exagero de auto-censura tolhedora. Mas mudei de idéia: hoje acho que TUDO que acontece é nossa responsabilidade. Eu deveria ter previsto, eu deveria ter preparado, eu tenho que agir para corrigir. Eu sou o responsável. Por tudo. Tenho a obrigação de agir para melhorar tudo.

É tudo minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa.


(fev/2012)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Palavra de Especialista!

Sugestão de roteiro de vídeo para bombar no U-Tube:

Uma Endocrinologista deitada em uma cama, de barriga para baixo.

Um rapagão lhe aplica entusiasmadas lambidas no esfíncter rugosinho.

Ele se vira para a câmera, e diz:
- “É docinho!”

Ela se ergue, olha para a câmera, faz um vigoroso sinal de positivo e diz com um sorriso maroto:
- “Pode comer que não engorda!”

É coisa pra lá de um milhão de acessos!


(fev/2012)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Crisis? What Crisis?

Em um (ótimo) programa de consultas psicológicas no rádio, surge a pergunta:
- “Doutor, tenho quarenta e poucos anos. Em que idade ocorre a ‘crise de meia-idade’, aos 40 ou aos 50?”

O questionamento me marca mais do que a resposta, e passo imediatamente a ruminar que o que acontece é que passamos a vida inteira em crise! Não existe uma crise da meia-idade, uma crise dos 30 anos (ou ‘do retorno de Saturno’, para os mais elaborados), ou crise de 7 anos de casamento, ou da adolescência, ou do fim da adolescência, ou whatever. A vida toda é uma interminável – e crescente – crise. Daí fica-se inventando um ou outro apelido que classifique este ou aquele momento, e nós pobres manés compramos a idéia.
– “Ah, agora estou na crise dos 25 anos...”
Nada disto!

Sorry, kid: você passa a vida inteira em crise. A única coisa que muda é o nome.


(fev/2012)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

The Rock

Um dos problemas de envelhecer é que quando você está comendo e morde uma pedrinha, não sabe se ela é do arroz ou um pedaço do seu dente!


(fev/2012)