quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Nunca Perca a Chance


O passar dos anos me faz dar mais e mais valor às palavras que um dia li em um Refúgio no Caminho de Santiago na Espanha, em 1996.

Interprete, adapte, extrapole de acordo com o seu momento:

“Nunca perca a chance:
- de encher o seu cantil;
- de esvaziar sua bexiga;
- de atualizar o seu diário.”

(Creio que este terceiro ponto já seja uma adaptação por minha parte, por exemplo...)

(fev/2014)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Coisas da Idade


Assisto um filme com Papai & Mamãe. Na apresentação, o logo da COLUMBIA. E Papai diz:
- “Esta mulher morreu quando eu ainda era criança...”

Conto esta história toda vez que estou vendo filme da Columbia com algum Amigo. E invariavelmente me questionam:
- “Ele estava falando sério, ou só brincando com a própria idade?”
(Papai tem 84 anos.)

Outro dia fiz finalmente esta pergunta a ele. E já sei a resposta.

Mas não vou contar aqui!

-x-x-x-x-x-x-

Mais uma de idade, esta com W., irmã do Papai (ela tem 85 anos).
W. mora no Leme, e vai à missa todos os dias. Estou tomando um café com ela em uma delicatessen em Copacabana, e pergunto aonde vai à missa.
- “Na Igreja do Leme. Quando eu era criança, ainda estavam construindo a Igreja. Hoje ela já está caindo aos pedaços. Nossa, como estou velha!”

(fev/2014)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Time is on my Side


Segunda-feira, 09h30m da matina. A semana está começando naquela Administradora de Cartões de Crédito; o Escritório ainda não está nem mesmo cheio.

Estou no banheiro fazendo a toalete, e a meu lado está um Compliance Officer. Ele resmunga:
- “Ô, semaninha que não passa!...”

(fev/2014)
(mas o fato tem uns 10 anos...)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um Problema do Brasil


É triste constatar isto, mas um dos principais problemas do Brasil é a admiração dos brasileiros pelo Rio de Janeiro.

Em todos os lugares o carioca é exaltado, admirado, bem recebido, amado. Imitado.

E qual é o exemplo que o carioca inspira, e que o Brasil segue? O do malandro. O do experto. O do que dá um jeitinho e se dá bem.

Onde isto fica mais facilmente vislumbrável é no trânsito. Tristemente acompanhei o germinar e florescer de todo tipo de esperteza e malandragem nas ruas das cidades e nas estradas. Gente que virou experta tentando de qualquer jeito ganhar alguns poucos metros ou meros segundos, e para isto sacrificando a honra e ignorando o “face value”.

O brasileiro acabou aprendendo que a maioria daqueles que pedem alguma coisa - seja passagem, camaradagem, gentileza, ajuda - não necessita realmente, mas sim está sendo experta e abusada. Passou consequentemente a não dar passagem, a não ajudar, a não ter calma ou paciência. Acabou-se a gentileza - ser gentil para quê, uma vez que é tudo malandragem?

Acabou se tornando um povo em guerra consigo próprio - sem confiar na boa fé de ninguém, pois afinal não existem motivos para tal.

E quanto mais malandro se torna o povo, mais malandro ainda tem que se tornar cada um, para se sobressair. Para se dar bem. Para ser mais experto.

Para ser ainda mais “carioca”.

(fev/2014)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Critério de Seleção


Existem cérebros com mais acentuada capacidade analítica, que levam em consideração uma maior quantidade de fatores - e principalmente a complexidade de suas conseqüências e a profundidade de seus impactos.

Existem outros que fazem somente análises superficiais, arrogantemente confundindo precipitação com “rapidez de raciocínio”.

Quando um dos principais critérios de seleção de um Executivo for a velocidade da tomada de decisões, o Caçador de Cabeças estará simplesmente optando pelo candidato mais imprudente - talvez por aquele de cérebro menos complexo.

Como estava escrito em uma nota de pé de página nas tábuas de Moisés, “a pressa passa; a cagada fica”.

(1956-2014)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O Bem Mais Precioso


Qual o Bem mais precioso que nosso Planeta tem a oferecer a eventuais invasores extraterrestres?

Sempre considerei que a água seria nosso maior tesouro: terrivelmente escassa no Universo (ao menos o que conhecemos), fonte da vida (ao menos a que conhecemos), etc.

O Arcanjo tem outro ponto de vista. Para ele, o maior tesouro da Terra são seus habitantes; “as unidades de carbono que infestam o Planeta”, segundo V’Ger.

Somente dispomos de um único exemplo de contato com outras civilizações: o que foi fornecido por nós mesmos. E todos os contatos de nossa civilização com outras raças foi para dominar, escravizar ou comer (incluam-se aí os equinos, bovinos, galináceos, etc). Somos mais fortes? Então utilizaremos conforme nossa conveniência!

Além disto, é também possível que a carne humana seja “um petisco apreciado em toda a Galáxia”! (*)

Neste sentido, chega a ser apavorante que enviemos mensagens ao espaço - como as placas (foto anexa) que seguiram nas sondas PIONEER 10 (lançada em 1972) e 11 (1973), e que já deixaram o Sistema Solar - com a localização de nosso  Planeta e outras informações para um eventual contato com raças alienígenas das quais não temos a menor idéia quanto às intenções.

Se tais raças raciocinarem como a raçumana, e se forem mais poderosas do que ela (se chegarem até aqui certamente o serão, pois jamais conseguímos sair deste subúrbio da Galáxia), esteja a razão comigo ou com o Arcanjo... fodeu!

(fev/2014)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Neurolingüística


Um dos mais evidentes sinais de pobreza de capacidade lógica é um raciocínio primitivo que é repetido à exaustão. Consiste em dizer que a expressão “não posso esquecer” seria contraproducente, pois utiliza o verbo “esquecer” e isto estaria condicionando o cérebro do pobre idiota ao esquecimento. O argumento é que a expressão correta seria “preciso lembrar”, que ao utilizar o verbo “lembrar” estaria dando um estímulo positivo ao cérebro do primata que pensa assim.

Trata-se de um raciocínio pouco favorecido, e que só faz algum sucesso porque a Raçumana é constituída essencialmente por raciocínios maldotados.

Podemos construir uma argumentação inversa: “não posso esquecer” implica um conhecimento que já está no cérebro, e portanto é uma mera questão de não deixá-lo esvair-se. Por outro lado, “preciso lembrar” implica uma cabeça oca que ainda necessita ser preenchida pela informação.

Mas, pensando bem, já que a maioria das cabeças é mesmo oca...

(fev/2014)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Onda de Calor


Rio, São Paulo e boa parte do Brasil vão passando por uma pavorosa e inclemente onda de calor já há mais de 6 semanas, desde o final de 2013. Os termômetros assinalam temperaturas superiores a 35ºC, mas a sensação térmica de abafamento muitas vezes supera os 45ºC, remetendo ao que diz o Coronel Miles Quaritch no início de “Avatar”: “(...) se realmente existe um lugar chamado Inferno, vocês vão querer tirar férias lá (...)”!

As estatísticas publicadas dizem coisas como “há 70 anos não fazia tanto calor assim”, “desde 1943 os dias não há dias tão quentes”, etc.

E logo uma alcatéia de profetas do apocalipse que não consegue se aprofundar mais do que 1 centímetro nos assuntos começa a ulular:
- “É o aquecimento global! É a resposta da Natureza às agressões do Homem!”
O raciocínio extremamente complexo e sofisticado é: “está quente... então a culpa é do aquecimento!”

O que estas toupeiras não enxergam é que se já fazia esta temperatura há 70 anos atrás, então é evidente que não estamos piorando - no máximo, repetindo.

Não é que não haja aquecimento global. Mas simplesmente constatemos que verões com altas temperaturas são cíclicos e recorrentes, e não são nenhuma novidade.

O pior é que estas toupeiras alarmistas encontram espaço na Imprensa...

(05/fev/2014)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O Dia em que Eu Comprei um CD da Lady Gaga


A primeira vez foi há uns 2 anos nas Grandes Galerias (que os neófitos conhecem como “Galeria do Rock”) em São Paulo.

Eu estava vestindo uma camiseta do GOLDEN EARRING, e comprei um CD do PETER HAMMILL. No embalo, comprei também um blu-ray “en vivo” da SHAKIRA. Perguntei ao Scott (fã alucindo de Mr. Hammill):
- “Quantas vezes na existência da MUSIC HOUSE você já teve um cliente com camiseta do Golden Earring comprando um CD do Peter Hammill e também um show da Shakira?”
Bom vendedor que é, além de educado, ele preferiu sorrir e não responder.

Agora foi na Saraiva do Shopping Morumbi. Eu vinha há tempo namorando o recente “Artpop” da LADY GAGA. Ouvi também os últimos e recentes “Bangerz” da MILEY CIRUS e  “Prism” da KATY PERRY, mas Gaga me soou mais corajosa, mais compositora, mais ousada, mais musical, e optei por seu álbum. Além da capa - influenciada pelo “Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli - ser absolutamente genial. Mas me faltava... coragem para comprar aquilo que poderia ser a pior aquisição de minha existência always rocker (se bem que dificilmente algum dia comprarei alguma coisa pior do que o “Chameleon”, do HELLOWEEN). Quando após 2 meses de relutância finalmente me enchi de brios e decidi, surpresa: a versão com DVD estava com um mega-desconto. E inesperadamente passei a ser proprietário também de um vídeo com um pocket-show .

(Um parêntesis: por quê no Brasil um disco com DVD anunciado como bônus custa mais caro do que o mesmo disco sem o “bônus”? “Artpop” sem DVD custava R$28 em todo canto - exceto nas Lojas Americanas, este deve ser o único disco que é mais caro nas Americanas do que nas demais lojas - e a versão com o DVD bônus R$46. Ou seja: “bônus”, no Brasil, é pago.)

Quando paguei a peça, a Gatinha no Caixa disse:
- “É para presente, não? Você está com camiseta do DREAM THEATER, é claro que este disco não é para você...”

Ela estava enganada. E passados dois dias e as primeiras duas audições, ainda estou tentando compreender a corajosa bolacha de Stefani Joanne Angelina Germanotta. Mas começo a achar que a Shakira já ficou no passado...

(02/fev/2014)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Excomunhão


Gostaria que alguém - se possível  - explicasse como funciona a bureaucracia da Excomunhão.

Imagino que Deus (se é que existe) seja forçado a manter na porta do Céu (se é que existe) um “controle alfandegário”: quando alguém chega, a equipe vai verificar nos registros se este alguém foi excomungado ou se pode se submeter ao critério divino de avaliação de desempenho.

Em Olinda em 2009, uma menina de 9 anos foi estuprada pelo Padrasto e engravidou. Foi legalmente permitido um aborto com assistência médica. Pois tanto a Menina como seus parentes como também os médicos foram todos excomungados (o Padrasto não foi excomungado).

Na época da caça às bruxas (circa Século XVI), milhares de mulheres foram excomungadas (além de torturadas, queimadas e enforcadas). O que acontece no Céu? Elas não podem entrar, afinal Deus tem que obedecer às ordens dos Sacerdotes.

Séculos depois os conceitos da Igreja evoluem, o anátema é revogado e Deus - na condição de porteiro obediente - finalmente pode dar entrada em sua morada àquelas pessoas que foram injustiçadas pela moral reinante naquele momento obscuro.

A raçumana  gosta de olhar para o passado e julgá-lo atrasado, convenientemente esquecendo que aquilo que vive hoje será considerado tosco, rudimentar e completamente ultrapassado em muito pouco tempo.

A mim soa simplesmente como uma enorme arrogância por parte de quem realmente acredite que temos tal poder sobre o Post Mortem.

(Será que serei excomungado por ter um questionamento racional?)

(fev/2014)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os Primos dos meus Pais


Para mim sempre foi uma tremenda confusão nas reuniões de Família reconhecer quem eram os primos de meus Pais. Identificava-lhes os rostos, e até lembrava-lhes os nomes quando eram mencionados - mas jamais consegui associar os nomes aos rostos, ou saber precisar as relações consangüíneas. Era um oceano profundo, denso, obscuro e misterioso no qual eu perigava naufragar na impolidez caso fosse questionado quanto a nomes ou parentesco. Neste quesito, nas reuniões de Família eu vivia em sobressalto.

Atualmente identifico o mesmo estupor nos filhos e filhas de meus Primos. Olham para mim como algo que já viram, me enxergam através da bruma sem saber precisar exatamente o que estou fazendo naquela casa ou festa que lhes é de domínio familiar.

Portanto, meu Caro / minha Cara, não se iluda: os filhos e filhas de seus Primos NÃO SABEM quem você é! Têm uma noção vaga que você vaga por eventuais eventos familiares, mas ignoram de quem se trata. Se você nunca mais aparecer por lá, não lhe notarão a falta.

Desta forma, jamais coloque os infantes na saia justa de perguntar qual é o seu nome, ou se sabem qual o seu parentesco com a Família deles. Você foi poupado desta situação embraçosa; é chegada a hora de retribuir!

(jan/2014)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Atestado de Falência


No relatório “Working for the Few” publicado em 20 de janeiro de 2014 (e amplamente divulgado), a OXFAM britânica constata que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do Planeta equivale ao patrimônio da metade mais pobre, ou cerca de 3,6 BILHÕES de pessoas (*).

Em notação matemática:
85 = 3.600.000.000

Honestamente, não consigo imaginar constatação mais triste, deprimente ou POBRE do que esta.


(*) Nota - a grande maioria das publicações comentou como sendo “3,5 bilhões de pessoas”, o que representa um erro grosseiro. O que a OXFAM escreveu foi “a metade mais pobre”; e quem estiver atualizado - esperaria que jornalistas estivessem! - sabe que a população da Terra já superou 7,2 bilhões. Vide:

Nota 2 - alguns dados do relatório:
- Riqueza total da população do Planeta: US$ 220 trilhões
- Patrimônio dos 85 mais ricos, igual ao dos 3,6 bilhões mais pobres: US$ 1,7 trilhões
De onde se conclui que:
- Patrimônio médio dos habitantes do Planeta: US$ 30,6 mil per capita
- Patrimônio médio dos 85 mais ricos: US$ 20 bilhões per capita
- Patrimônio médio dos 3,6 bilhões mais pobres: US$ 470 per capita
E a notação correta (aproximada) é:
85 x US$ 20.000.000.000 = 3.600.000.000 x US$ 470

(jan/14)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Burro, Ridículo & Stúpido


O Balneá-Rio tem já há alguns meses um novo sistema de circulação de ônibus, ao menos na Zona Sul: o “Burro, Ridículo & Stúpido”, identificável pela sigla BRS. Segue abaixo uma tentativa de explicação de seu funcionamento.

Os ônibus foram divididos em 3 grupos:
- o Burro, Ridículo & Stúpido 1 (BRS 1)
- o Burro, Ridículo & Stúpido 2 (BRS 2)
- o Burro, Ridículo & Stúpido 3 (BRS 3)

Cada grupo tem suas próprias paradas ou pontos, que podem ou não ser agrupados, de forma errática.

E como isto ajuda o usuário? Não ajuda! Vá você para o Jardim Botânico, Sovaco do Cristo, Vila Valqueire, Fonte da Saudade, Largo dos Leões ou para a PQP, haverá BRS 1, 2 e 3 com estes mesmos destinos. Você pode portanto estar indo para a Gávea esperando em um ponto BRS 2 e vai ver passar um Gávea BRS 1 (pode ter certeza de que isto VAI acontecer). Sua cara de idiota fica por cortesia da casa.

E onde se localizam os pontos? Surpresa! Não há indicação ou lógica! Você está em um ponto BRS 1 na Cockroach Ribeiro e quer ir para um BRS 2. Vê um ponto no quarteirão anterior e outro no seguinte. Qual será o que você precisa, qual a direção a tomar? Só há um jeito, Meu Caro / Minha Cara: caminhe até o próximo quarteirão, descubra que aquele não é o Burro, Ridículo & Stúpido 2 que você queria mas sim um Burro Ridículo & Stúpido 3, ande 2 quarteirões na direção oposta, passe pelo ponto Burro Ridículo & Stúpido 1 onde você estava anteriormente. Quando você chegar ao ponto que queria, certamente terá perdido uns 3 ou 4 ônibus.

Canso de ver usuários atrapalhados e perplexos em pontos de ônibus, acenando para ônibus que passam céleres ao longe. Espera-se que ao menos exista um manual de uso, mas um sistema de transporte coletivo - especialmente em uma cidade turística - tem que ser intuitivo. Vai tentar explicar para um americano, um alemão ou finlandês um troço que nem os cariocas entendem!

Convenhamos, só no nome eles acertaram.
É Burro.
É Ridículo.
É Stúpido!

(Rio, 23/jan/2014)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A Voz do Povo


Pego um ônibus na Rua Cockroach Ribeiro, em Copacabana. Estou de pé pagando a passagem quando ele pára em um sinal fechado na esquina com a Rua Xavier da Silveira.

Diversas placas de ruas no Rio têm um curto descritivo de quem foram as pessoas que as batizam. E aparentemente o Motorista do ônibus tem uma brincadeira com o Trocador:
- “Diz aí, quem foi Xavier da Silveira?”
 
Me intrometo:
- “A rua onde morei dos zero aos quinze anos!”

Não é a resposta esperada, e o Motorista insiste:
- “Diz aí, quem foi Xavier da Silveira?”

O Trocador vocifera:
- “Um corno safado!”

Quando o sinal abre, o ônibus avaça até que se consegue ler o micro-CV de Xavier da Silveira. E o Motorista dá o gabarito em voz alta:
- “Olhaí, foi um político brasileiro!”

E o Trocador murmura, triunfante:
- “Não disse que era um corno safado?!?”

(Rio, 22/jan/2014)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sexto Sentido


Tiveram um relacionamento de 2 anos no início dos anos 80, quando estavam ambos em seus mid-twenties. Os Amigos achavam que tinham sido feitos um para o outro e imaginavam que ficariam juntos para sempre (seja lá o que isto signifique), de forma que ficaram surpresos com a separação - que foi súbita, e surpreendeu até mesmo os dois. Mas era irreversível.

Ela sempre dizia que era uma pessoa para o Século XXI, que lá viveria sua plenitude; mas morreu poucos meses antes de sua chegada, o que igualmente foi poucos meses antes de completar 40 anos. As  circunstâncias daquela morte foram tremendamente estranhas, a ponto de não haver qualquer possibilidade de reconhecimento do corpo. Mas ninguém teve dúvidas de que era o dela.

Com o passar dos anos - já no Século XXI - ele de vez em quando tinha a impressão de vê-la, às vezes ao longe, certa vez no Jornal Nacional... Certamente uma look-alike, imaginava ele.

Mas certa vez sua Prima - que era muito Amiga daquela Ex - disse que a tinha visto também. Em um show dos Titãs. Weird...

Naquela terça-feira 21 de janeiro de 2014 ele estava andando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana e a viu. De frente. Cara a cara.

Ela também o viu.

Ficaram se olhando através de seus óculos escuros.

Ele não falou nada. Se alguém tivesse alguma coisa a dizer, seria ela.

Mas ela não o fez.

Cruzaram e foram embora, cada um em sua direção. Opostas.

Não havia como saber, afinal, que corpo era aquele tantos anos atrás.

(Rio, 21/jan/2014)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Antes de nascer


Ele sempre considerou que 99% das pessoas são de boa índole, e os restantes 1% terminam por aterrorizar a existência daqueles bons 99%. Assim, se (por exemplo) em um assalto alguém tivesse a oportunidade de reagir e mesmo perecendo levar um assaltante junto, seria uma troca com saldo positivo para a Humanidade: afinal, se 1% das pessoas de bom caráter se sacrificassem levando consigo os 1% de má índole, o que restaria seria 98% da Humanidade levando uma vida sem sustos, medos ou receios. Um sacrifício nobre, uma troca vantajosa: “the needs of the many outweigh the needs of the few. Or the one.”

A oportunidade se apresentou em um almoço numa segunda-feira. O restaurante foi invadido por 4 meliantes que saíram saqueando as mesas aleatoriamente. Um dos assaltantes ficou de costas para sua mesa, e de frente para o resto dos clientes. Sobre a mesa, os talheres. Ele podia com tranqüilidade pegar a faca e cravar em local escolhido nas costas daquele um. É claro que seria fuzilado pelos outros três, mas era a troca justa sobre a qual  já filosofara. Hora de passar do mundo das idéias para a ação.

Mas... sentada em sua mesa estava Lucía, no nono mês de sua primeira gravidez. Ele ficou imaginando o trauma que ela teria ao ver seu colega de trabalho esfaqueando alguém a 1 metro de distância, e sendo morto em seguida. Seria correto expô-la a isto? Ele titubeou.

Os assaltantes foram embora, por puro acaso sem roubar a mesa da grávida. No dia seguinte, dois aviões se chocaram com o World Trade Center em New York, e Lucía não conseguiu segurar tanta tensão. Isola Bella nasceu, sem saber que antes mesmo de fazê-lo já tinha salvado a vida de duas pessoas.

(jan/2014)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Falar é Fácil!


Passou despercebido no mundo inteiro, e só me ocorreu agora: o nome do disco de 1988 do Keith Richards é uma espetadela no Jagger!

"Talk is Cheap", "Falar é Fácil", ou no caso um sutil "Só Cantar é Fácil", com um subtítulo inferido: "Quero ver tocar guitarra"! Sou de teoria que a guitarra do Jagger fica DESLIGADA durante os shows dos Stones, é só um 'scenic device'. E mais: quando não está desligada, deveria!!!

Uma outra alternativa é que todo mundo tenha notado a ferroada, e eu não notei que todo mundo notou. E pior: só descobri 26 anos mais tarde...

(jan/2014)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Mermaid to Order


Encontro Mademoiselle FG no supermercado. Furacão profissional, antes de completar 30 anos a Loura já tinha em seu CV os cinco ou seis principais nomes do Dow Jones. Há quase um lustro não sabia dela, e nem mesmo tinha conhecimento de que voltara a morar na Cidade Cinza. Na conversa faço a mesma pergunta que formulo a todo mundo independentemente de idade, crença, grau de intimidade, gender, raça ou whatever:
- “Você está casada ou solteira?”

Tem sido crescente a dificuldade em obter uma resposta concreta a esta questão, mas ela não se intimida. Seus olhos “Mermaid to Order” me fulminam, assim como sua resposta:
- “Eu estou... BEM!”

A pergunta infinitiva encontra finalmente sua resposta definitiva.

(jan/2014)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Found in Translation


A expressão “lost in translation” se refere a peculiaridades lingüísticas intraduzíveis, como por exemplo trocadilhos e jogos com palavras. Aqui, um (não muito renomado) tradutor de histórias em quadrinhos registra o oposto: curiosidades, expressões em inglês e seus correspondentes em português (ou talvez brasileiro) que o surpreenderam, e que considera merecerem registro.

Sugestões e principalmente correções são muito bem-vindas.

trocadilho - pun

I for one - eu por mim

for the time being - por enquanto

“been there, done that” -“ já conheço os passos desta estrada”

all said and done - no final das contas

fucking - sacaneando
(“sacanagem” é possivelmente a palavra da língua portuguesa mais difícil de se explicar para um gringo. Ou era, até eu descobrir sua correspondência com “fucking”. Assim, uma pergunta “are you fuckin’ me?” equivale (ou pode equivaler) a: “tu tá me sacaneando?”)

Gatos têm Sete Vidas; Cats have Nine Lives!

wasted - chapado, doidão

minced - moído / chopped - picado


stray (cat, dog) - (gato, cachorro) vira-latas

mahogany - mogno

barrel of a gun - cano do revólver, da arma

rock bottom - o ponto mais baixo, fundo do poço. Deriva da imagem de uma pedra caindo (seja no ar ou afundando dentro da água): ela só vai parar no ponto mais baixo, quando não houver mais para onde descer. Nada pode ser mais baixo, portanto, do que o fundo (“rock bottom”) desta pedra.

Sucker Punch - golpe baixo

time to move on - hora de (deixar a pasmaceira e) seguir em frente, mudar

(jan/2014)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pontualidade


Duas citações do Professor Mario Sergio Cortella (a quem agradeço o envio dos 2 volumes de “Pensar bem nos faz bem” dedicados e autografados):

- “A Pontualidade é um crime sem testemunhas.”
(dito popular)

- “Pontualidade é a coincidência de duas pessoas chegarem com o mesmo atraso.”
(Leon Eliachar)

De Jim Butcher:
“Pontualidade é o que as pessoas fazem quando não têm nada melhor para fazer.”

Provérbio (inglês?):
“A Pontualidade é uma cortesia dos Reis, e uma obrigação dos educados.”

(out/2013)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Menino Veneno


Aconteceu no início do Século XXI.

Show de Marcelo Nova na Vila Madalena. Antológico!, como todos os shows dele. A alturas tantas, Nasi subiu ao palco e iniciou um dueto com Marcelo. Passaram então a um desafio como os dos repentistas sertanejos, porém com levada rock’n’roll: cada um improvisava uma quadrinha com rima e sacaneando o outro, e instantes depois vinha a resposta no mesmo tom. Longo, brilhante, criativo, divertido, inesquecível!

A galera na pista estava estranhamente distante do palco. Com traje “au grand complete” - all blacks, inclusive o blazer - me aproximei e fiquei lá na frente, bem perto do palco.

Lá pelas tantas, no meio do show, dois caras se aproximam e um deles me pergunta:
- “Você é o Ritchie?”

Demorei um pouco para entender a pergunta. Quando me refiz, respondi:
- “Não, eu não sou o Ritchie.”
Os  caras se afastaram.

Mas em pouco retornaram:
- “Você É o Ritchie!”
De cima de minhas botas, respondi:
- “Não, eu não sou o Ritchie!”
Os caras se afastaram.

Daí a pouco voltaram uma vez mais:
- “Mas se fosse o Ritchie, você não diria...”
Respondi com toda a sinceridade do Mundo:
- “Se eu fosse o Ritchie eu diria sim que sou o Ritchie. Mas eu NÃO SOU o Ritchie!”

Os caras ficaram por perto.
- “É, não tem sotaque, mesmo...”

Ao final do show, Marcelo Nova foi ao baterista, pegou uma baqueta, veio para a boca do palco e a entregou a mim.

(jan/2014)

domingo, 12 de janeiro de 2014

The Spaghetti Incident?


Versões de músicas, releituras, retrabalhos, reinterpretações e afins só servem para uma coisa: dar vontade de ouvir a versão ORIGINAL das músicas!

Mas ao menos esta vantagem elas têm sobre as Rodinhas de Violão, que dão vontade de NUNCA MAIS ouvir aquelas músicas!!!

XÔ, Scratch My Back! XÔ, Songs From the Mirror! XÔ, Spaghetti Incident (mesmo tendo ‘Raw Power’ e T.Rex)! XÔ XÔ XÔ Emmerson Nogueira & Danni Carlos! Paulo Ricardo: tocar “Crazy Little thing Called Love”, “Jealous Guy” e “Something” em uma coletânea caça-níqueis com 17 versões “Acoustic Live”, o quê é isto??? Titãs, convenhamos: “As 10 Mais”??? "Lulu Canta e Toca Roberto e Erasmo", que merda!!! "Tributos" a Led Zeppelin e Deep Purple, PQP!

(Nota: tal asco não se aplica a Bandas que fazem covers. Quase sempre o cover é uma homenagem tocada com tesão, screaming guitars, comumente versões mais pesadas e longas, jams em cima dos originais, e não uma “versão pessoal” que é normalmente “mais intimista”, em outro ritmo, arrastada, ‘novo approach’, salsa, em espanhol, bossa nova, uma bosta!!!)

(jan/2014)

sábado, 11 de janeiro de 2014

A Bolsa ou a Vida


- “A bolsa ou a vida!”
- “Então é você quem tem a missão de dar termo a minha jornada. Agradeço. Cumpra sua tarefa.”
Ajoelhou-se, abriu os braços, abaixou a cabeça e fechou os olhos. E aguardou.
 
-x-x-x-

O crime de quem aponta uma arma e ameaça tirar a vida de uma pessoa não é o assalto. O que está em jogo não é a bolsa, mas a vida.

Quem ameaça a vida dos outros e se auto-conceitua como potencial assassino, como tal deve ser julgado.

(jan/2014)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Viola


Viola é uma gatinha de olhos verdes nascida em fevereiro de 2000. Diz-se que a equivalência entre a idade dos gatos e a dos serumanos é: o primeiro ano de vida do felino equivale a 9 anos humanos, e os seguintes equivalem a 5 anos cada. Ao completar 14 anos felinos em fev/14, ela terá portanto 74 (hum)anos.

Desde a bebezinha que nunca deixou de ser, Viola sempre viveu dentro de um mesmo apartamento. Quase nunca saiu de casa, e praticamente desconhece que existam outros seres semelhantes a ela.Tem todo o mapa de sua casa minuciosamente detalhado na cabeça, e se alguém chega com alguma coisa nova ela imediatamente utiliza seu nariz para pesquisar e aprender; Viola sempre sabe TUDO.

Sua mais marcante característica, no entanto, é o mau humor. Arredia e esquiva, brava mas não agressiva, Viola foge a qualquer tentativa de um carinho indesejado - e praticamente todos os carinhos lhe são indesejados. É curioso que com 14 anos de rotina ainda não confie em ninguém (a não ser sua Mamãe humana), e que seja tão desconfiada e furtiva. Tenho a impressão que considera nossos ameaçadores braços como sendo seres independentes do  restante de nossos corpos, que não a incomodam; e, de seu ponto de vista, ela está coberta de razão.

Quando mais jovem, Viola subia nos móveis, espaldares de cadeiras e estantes. Jamais perdeu o hábito de se cobrir com um manto de invisibilidade quando algum desconhecido vai fazer algum reparo na casa que é seu reino.

Ela constantemente se aninha em meu colo, mas que não se infira qualquer motivação emocional neste ato puramente pragmático. Ela já descobriu que i) minha barriga é macia como um colchão de água, além de quentinha no inverno paulistano; ii) em meu colo ela fica livre de carinhos indesejados, pois eu a respeito e não fico como todo mundo passando a mão (ou tentando passar) por seu pêlo hiper-macio; e iii) quando em meu colo ela ganha total atenção de sua Mamãe humana - o que Viola adora!

Já velhinha, permanece magrinha e esbelta - pesa atualmente 2,6kg - mas perde a compostura quando está perto de presunto. Adora também requeijão e salmão, e por incrível que pareça, gosta de alface. Com o passar dos anos deixou de ser uma gatinha educada, e atualmente não se pode deixar um pedaço de frango, bife ou atum em cima da bancada da cozinha ou da mesa na sala: quando as pessoas derem as costas ela rapidamente abocanhará o naco, e se esconderá para degustá-lo. E sim, aprendeu a pular e se pendurar na maçaneta das portas até abrí-las quando a interessa.

Ela é uma confirmação da expressão “cães têm donos, gatos têm equipe de apoio”.

Se por muito tempo achei que não miava, atualmente me pego conversando com ela em sua própria linguagem.

Tenho-lhe muita pena, pois Viola é, a seu modo, o ser mais solitário do Universo: após suas primeiras semanas de vida, jamais voltou a encontrar um semelhante.

Viola é uma Panda em Saturno.

(jan/2014)