Em junho e julho de 1996 caminhei da França até o Cabo de Finisterre, na Espanha, pelo Caminho de Santiago de Compostela. Dormia em refúgios, igrejas, monastérios e eventualmente em pousadas. Tive bolhas, tendinitis, quebrei uma costela e sofri muito. Mas aprendi que grandes penitências trazem grandes recompensas, e muitos são os momentos de enlevo profundamente marcantes na vida de quem cumpre esta jornada.
ORIGENS E MITOLOGIA
Embora a versão corrente do nome Compostela seja bastante romântica (viria de "Campus Stellae", campo de estrelas, avistadas sobre a cova do Apóstolo) a verdade é que a origem do nome é "Compositum Tellae", ou seja, Cemitério: o corpo de São Tiago (Jakob, Iago, Jacques, James) teria sido encontrado em um cemitério, e sobre ele se ergue hoje a majestosa Catedral.
Dado seu aspecto religioso, a rota de peregrinação teve um enorme crescimento de popularidade como foco da resistência cristã à invasão moura no sul da Espanha, nos primeiros séculos deste milênio.
Segundo a mitologia antiga do Caminho, uma peregrinação destas absolve 1/3 dos pecados (equivalente a entre 20 e 200 dias de Purgatório); mas se for feita em um ano santo Compostelano (quando o dia de Santiago, 25 de Julho, cai em um domingo), então a absolvição é total! Cheque o calendário de 1999...
QUANDO IR E QUANTO TEMPO LEVA
A época ideal para peregrinar é do final de maio a setembro, primavera e verão no hemistério norte. Quanto à duração, como para quase todas as perguntas do Caminho, existem várias respostas; cada qual faz o seu tempo. Alguns preferem quase correr, acordando cedíssimo, saindo ainda no escuro e no frio, andando rápido e sem parar até o próximo refúgio; para eles, boa viagem ("Ultréia", como se diz no Caminho). Eu preferia acordar com calma, usar o refúgio quase vazio como uma pousada particular e começar "os trabalhos" lá pelas 7:30 da manhã.
De maneira geral, a disponibilidade de tempo determina a distância a ser percorrida, o meio de transporte e a velocidade. Quem faz a pé costuma cobrir 760 km’ em 30 dias; de bicicleta, a mesma distância é cumprida em 8-10 dias. Quase não existem mais peregrinos a cavalo. É necessário andar ao menos os últimos 100 km – ou pedalar os últimos 200 km - para se receber a Compostelana.
CREDENCIAL E COMPOSTELANA
Peregrinos e Peregrinas recebem uma credencial com espaço para carimbos registrando as igrejas, refúgios, monastérios e prefeituras de onde passou. É uma belíssima lembrança do dia-a-dia da viagem, e com ela preenchida se recebe um documento da Igreja ao chegar em Santiago: a Compostelana, em latim (inclusive seu nome!) comprovatório de que sim, você fez, você cumpriu toda a peregrinação. (Afinal, como os antigos campônios poderiam provar que o fizeram?)
Pode-se obter a credencial nas principais cidades do Caminho ou nas Associações de suporte a peregrinos. Temos no Rio a "Amigos da Rota Jacobea", e em São Paulo a "Associação de Amigos do Caminho de Santiago".
MATERIAL
O que levar: o mínimo indispensável. 5 peças são básicas: mochila, botas, cantil, cajado e chapéu. Felizmente temos moderníssima tecnologia para os dois primeiros (a bota é a escolha mais importante da viagem); e cantil e chapéu são muitos fáceis. O cajado é crucial: sua Trindade, seu terceiro ponto de apoio, formando um plano com os 2 pés; tua alavanca nas subidas e freio nas descidas; defesa contra os cachorros (sim, são muitos no Caminho); suporte para a mochila quando seus ombros estão doendo; bengalão quando se está exausto; e brinquedo quando se está feliz.
Roupas: uma calça leve e resistente (nada de jeans!), três camisetas, um casaco, uma bermuda, sandálias para a noite (os pés precisam respirar). Muito protetor solar e hidratante. Um saco de dormir é essencial, pois os refúgios oferecem beliches sem roupa de cama e você dorme dentro do saco: muito prático.
O símbolo do peregrino é a concha, que simboliza as mãos juntas, vazias e abertas para o que se queira oferecer a ele: água, abrigo, alimentação, ensinamentos. O uso da concha ao pescoço ou na mochila diferencia o peregrino dos caminhantes e turistas mochileiros.
AONDE COMEÇA O CAMINHO?
Diz-se que o Caminho começa no momento em que você decide fazê-lo; ou ainda que o Caminho está dentro de cada um, e que se pode até percorrê-lo sem sair de casa. Quem sabe? O seu pode estar começando agora...
De qualquer maneira, o Norte da Espanha é "onde todos os caminhos se encontram", e é a trilha tradicional. Os peregrinos brasileiros costumam começar em Saint Jean Pied de Port, na França, no pé dos Pirineus. O Caminho segue pelas províncias de La Rioja, Castilla, El Bierzo, Galícia... todas regiões de vinhos de altíssima qualidade.
O trajeto é feito no sentido Oeste, o que significa que o peregrino segue sua sombra por todo o tempo. À noite, a sinalização da peregrinação é ainda mais simbólica: estamos exatamente abaixo da Via Láctea, e ela mostra a direção a seguir.
O caminho passa por algumas cidades maiores (Logroño, Pamplona, Burgos, León), mas elas são inóspitas para o Peregrino, que prefere os campos e os vilarejos. Nestas cidades "grandes" (100.000 habitantes) eu me hospedava em pousadas, virava turista e tirava os "day-off"s tão necessários para reposição das exauridas energias físicas. Era aí que eu me separava de grupos de conhecidos que na última semana estavam sempre por perto nos refúgios e restaurantes, e conhecia novos grupos que vinham atrás. Ao mesmo tempo uma sensação de desamparo e de renovação; lições de desapego.
PORQUÊ VOCÊ FEZ O CAMINHO?
Esta é a pergunta que mais se ouve antes, durante e depois do Caminho; e também aquela cuja resposta mais muda a cada dia ou situação. O próprio Peregrino se pergunta todo o tempo “o que eu estou fazendo aqui?”. Turismo, aventura, misticismo, religiosidade, filosofia, introspecção: a resposta varia ao longo da jornada.
Com o passar dos dias um significado mais filosófico e espiritual vai envolvendo o Peregrino. A vida é objetiva: caminhamos (uma média de 20 a 25 quilômetros por dia, em uma banda de 10 a 40), procuramos água, procuramos onde comer, onde dormir. Não se sabe se no refúgio vai ter banho quente ou papel higiênico, como se vai dormir, ao lado de quem. Mas é aí mesmo que o desapego se impõe; as necessidades são básicas, elementares, não há preocupação com besteiras, mas sim com o peso da mochila nas costas. E nos desfazemos de supérfluos: comecei a peregrinação carregando 12kg e acabei com 9kg.
Com o espírito livre, caminhando sozinho por florestas, matas, rios, estradas, trilhas, igrejas, vilas, montanhas, planaltos e desertos. conversando com desconhecidos, com uma dieta muitas vezes composta apenas por vinho e hóstia, o sentimento fica solto, e a percepção aguçada... Mas isto é para sentir, e não para ser contado.
REFEIÇÕES E HOSPEDAGEM
Os restaurantes apresentam um "Menu do Peregrino" (aprox. US$ 10) com prato de entrada, prato principal, vinho, pão e sobremesa; e com mais US$ 1 você toma um fortíssimo e inebriante café expresso, de lei em toda a Espanha. Os espanhóis adoram brasileiros, e a toda hora convidam para um vinho-cortesia com bate-papo. Aprendi - com um Padre - que um ou dois golinhos de vinho são muito energizantes para caminhadas matinais.
Os refúgios são praticamente de graça: em geral se contribui com quanto quiser; a maioria dá US$ 1 ou 2. Querendo ter vida espartana se pode gastar bem pouco (alguns fazem toda a peregrinação sem levar qualquer dinheiro, vivendo somente dos favores e doações de outros - uma dura tarefa auto-imposta); e quem quiser fazer turismo e passar muito bem também encontra ótimos hotéis paradores.
Optei por misturar turismo à aventura, e para cobrir 860 km. levei 48 dias, dos quais 9 sem caminhar, seja por turismo, seja por contusões que tive. Quanto maior o tempo, maior o prazer. A chegada chega a ser triste para o Peregrino, pois significa o término de dias tão significativos e gratificantes. Daí eu ter resolvido continuar por mais 100 km. até Finisterre.
FINISTERRE
O Caminho de Santiago está em verdade sobre uma antiquíssima rota de peregrinação até Finisterre, o "Fim da Terra" dos antigos, quando a Terra ainda era plana. Ali o Homem ia se defrontar com o Fim, com o seu fim, com a Morte, tão bem representados pelo pôr do Sol no imenso oceano sem horizonte. Ali também o Homem se encontrava com o Renascimento, igualmente bem representado pelo nascer do Sol no dia seguinte. Rituais de Fecundidade são representados em pinturas na pedra em imemoriais ruínas.
Finisterre assim representava (representa) não somente o fim de uma jornada, mas também o início de uma outra: a volta. O reinício, o recomeço, estando o Peregrino agora mudado. Os rituais não poderiam ser mais significativos: depois de ir até o fim da terra (onde há um Farol), você desce até o mar onde devolve sua Concha ao Oceano, queima suas roupas de Peregrino/a, mergulha totalmente nu/nua (em uma água gelada) e vê o Sol se pôr (ou morrer) no Mar. E então, retorna ao Mundo. Renascido.
Pouquíssimos peregrinos cumprem atualmente este ritual (um relato para potenciais candidatos a este trecho pode ser encontrado no e-ndereço http://www.caminhodesantiago.com/finis.htm). Acabei ficando uma semana em Finisterre comendo peixe, bebendo vinho, passeando por praias desertas inacreditavelmente belas e escrevendo muito.
Ao longo do Caminho se encontra muita história antiga, muita arte, muitas lendas e milagres. Se encontra amigos e se abre o olho para inimigos. Sua sensibilidade poreja, sua atenção é total, você não perde nada. E jamais esquecerá aqueles dias nos quais - mais do que nunca - sua vida fez total sentido.
(fev/1999)
