quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

(Hearing Earring 1 de 4) Golden Dreaming

Lá pelo início dos anos 80, em alguma edição especial da revista ROLLING STONE americana, li uma matéria sobre um show do LED ZEPPELIN em Londres na qual o autor comentava: “it was the first time I took a transcontinental flight to see a rock concert”. Na condição de roqueiro fanático, aquela frase foi uma iluminação: algum dia eu teria que fazer um transcontinental flight to see a rock concert...

Considero 3 bandas como a “Santíssima Trindade” da música: o GENESIS (com Peter Gabriel), o MARILLION (com Fish) e o GOLDEN EARRING. Das três, a banda holandesa é a única ainda em atividade (respeitável). Eles têm a mesma formação há mais de 40 anos, e continuam mais ativos do que qualquer outra banda que eu já tenha ouvido falar. Me chamaram a atenção em 1973 com a famosérrima “Radar Love”, do excelente álbum “Moontan”. “Switch”, o disco seguinte, foi uma antítese do “Moontan” (a começar pela capa que parodiava a maravilhosa capa-mulher-nua do álbum anterior), e apesar de conter diversas pérolas, me afastou do Earring (como aliás aconteceu com o mundo todo). O resgate veio através do devastador “Golden Earring Live” (1977), para mim nada menos do que o MELHOR disco ao vivo de todos os tempos. A partir daí eles me bombardeavam com petardos nada menos do que espetaculares a cada 1 ou 2 anos, discos poderosíssimos, criativos, com brilhantes riffs de guitarra e composições primorosas. Mamãe (fã incondicional de “Mad Love is Coming”, do álbum “Contraband”) os definiu como “uma banda extremamente viril” enquanto ouvia a inigualável “Save Your Skin” (de “No Promises, No Debts”), certamente influenciada pelo excepcional vocalista Barry Hay. O guitarrista Glauco Guedes comentou certa vez que George Kooymans “é um guitarrista que nunca erra”; já o guitarrista AnteNNa comentou que a dupla Rinus Gerritsen (baixo) e Cesar Zuiderwijk (bateria) é “uma cozinha objetiva, extremamente eficaz, aguda, que tocam juntos como se fossem um só”. Cesar chegou a ser convidado para substituir Keith Moon na bateria do THE WHO quando este morreu, mas felizmente recusou (o Earring excursionara com o Who pouco tempo antes). Aliás, certa vez Cesar promoveu um workshop com 1.000 (MIL !) bateristas em um porto holandês, dividindo-os em 4 grupos de 250 bateras e comandando a execução da seção rítmica de “Radar Love” – quem conhece a música pode imaginar o espetáculo que foi este workshop.

Eu poderia discorrer por dias sobre esta banda que sonoriza minha vida. Tenho deles cerca de 40 discos e 10 vídeos, além de toneladas de correspondência trocada ao longo de décadas – afinal nunca foi fácil conseguir seu material, imagine conseguir discos que só eram lançados na Netherlândia em uma época em que não existia internet... Mesmo atualmente não é fácil conseguir-lhes os discos, o que dizer de DVDs que só saem na Holanda, de uma banda quase desconhecida no resto do mundo. Mas prefiro tecer apenas dois comentários: o primeiro é que entre todas, esta é a banda que melhor explora dois vocais (um grave e outro agudo), conseguindo ser ainda melhor do que a dobradinha Coverdale-Hughes na gloriosa fase bluesy do DEEP PURPLE. Outro evento marcante para mim foi que quando começaram a alternar shows acústicos e elétricos (a série de discos acústicos se chama “Naked”) o Earring gravou um disco em um formato brilhante e que acho que deveria ser seguido por outras bandas: com o álbum totalmente composto, montaram um estúdio-garagem e convidaram cerca de 40 very special guests (membros do fã-clube, principalmente gatas) para assistirem à gravação do disco ao vivo. “Face It”, de 1994, é uma das muitas obras-primas da banda, mas ainda por cima alia a energia de uma gig a uma seqüência primorosa de músicas novas. O DVD – em formato holandês – está disponível, sendo um obrigatório documentário sobre a confecção de uma masterpiece.

Após a internet passei a acompanhar mais de perto as apresentações do Golden Earring. Os caras se apresentam praticamente dia sim dia não, alternando shows elétricos com acústicos. E isto há várias décadas!, creio que desde sempre, nunca vi banda com tamanha energia e vitalidade – ou virilidade...

O show do Led Zeppelin na O2 Arena em Londres em dezembro de 2007 reacendeu a chama, realçada pelo fato do primo AnteNNa ter feito o transcontinental flight para assistí-lo – e de quebra ainda me trouxe uma exclusivíssima camiseta do evento... No mesmo mês o profeta Fabio Star deu uma esticada de sua viagem à França e foi assistir ao EARRING em uma cidadezica que ele definiu como “uma Queluz holandesa”... Voltou com fotos e histórias de backstage, camisetas, e ainda me presenteou com um “Switch” autografado pelos 4! A partir daí, o próprio Estrella, com o apoio de Glauco e de Ane, começaram uma intensa campanha para que eu fosse à Holanda assistí-los. Pesquisa daqui, pesquisa dali, em janeiro/08 verifiquei que em maio eles fariam 3 shows em datas próximas. Tentei adquirir os ingressos via internet sem sucesso, e então escrevi para a banda relatando as dificuldades e pedindo ajuda. A resposta foi melhor do que o mais ousado sonho que um fã pudesse ter: “you have been included in the Golden Earring guest list for the three concerts. No need to buy tickets; just mention your name at the entrance”. É claro que comprei a passagem pela KLM no mesmo dia!...

E assim, aos 51 anos chegou finalmente a hora de eu fazer meu transcontinental flight to see three Golden Earring concerts. Você pode acompanhar alguns vídeos dos eventos e a programação da banda no site http://www.goldenearring.nl/ . E se notar um roqueiro grisalho chorando emocionado enquanto a banda performa nos shows dos dias 09, 11 e 12 de maio, do yourself a favour e pesquise mais a fundo e se informe sobre o... GOLDEN EARRING!

“There’s a sign at the end of the road, and it says: Next stop... Twilight Zone!”. Muitíssimo obrigado Mr. Star, Gloug e Ane. Saudações,
Always Rocker

PS: os setlists de diversos shows da carreira do GE – inclusive shows deste ano, e até da semana passada – estão em http://home.wanadoo.nl/casper.roos/setlist.html, um excelente site de fã, com MUITA informação.

(mai/2008)

(Hearing Earring 2 de 4) O13 Tilburg 09/mai/08


Algumas pessoas comentaram também já terem feito transcontinental flights para assistir a gigs. Aldo foi assistir ao RUSH em London em meados dos anos 80, e como bonus teve o antológico show do QUEEN en Wembley. E Mamãe foi a Miami para assistir com a Prima Lola Mary aos ROLLING STONES no show "No Security", sem segurança entre platéia e palco - e as duas em assentos “front row”...

Fui ao primeiro dos 3 shows com a camisa atual da seleção brasileira especialmente confeccionada para a ocasião, com o nome GOLDEN EARRING e o número "08" gravados nas costas. Ainda bem que saí de Breda 4 horas antes do horário (Zaal open 20.00, Aanvang 21.00, saí às 17h30m, mas o Earring só comecou às 22hs), pois levei uma hora e meia para percorrer os 25km entre o hotel e a O13 em Tilburg. Mudei a opção de trajeto no meio do caminho, e aí babau, pois todas as setas e indicações são em holandês - é óbvio - e a sinalização de estradas deles não tem NADA a ver com nossa lógica... Imagine o nó ao errar uma esquina!

A "O13" é uma excelente arena, um mini-Canecão ou mini-Credicard Hall. Cabem umas 1000 pessoas. Cervejas e todas as demais bebidas são vendidas através de "tokens", cada um custando 1,90 euro e dando direito a um copo pequeno (300ml) de draft local.

No casaco de couro de um motoqueiro na platéia: "Remember when SEX was safe and MOTORCYCLES were dangerous?"

O opening act foi a banda inglesa The 925's, garotada de 18-20 anos, brilhantes, arrebentaram, roubariam a cena não fossem as estrelas da noite as estrelas da noite... Comecaram às 20h40m e terminaram às 21h35m. Desci para forcar um xixi e pegar mais cerveja, e perguntei à loura do stand de merchandise da banda se ela estaria lá ao final do Earring (pois queira comprar o CD) - ela estaria. (continua abaixo)

Voltei e fiquei bem próximo ao palco, no 3o. degrau de baixo para cima, de onde dava para ver absolutamente TUDO.

1. SKYSCRAPER HELL OF A TOWN - O Earring entra elétrico, enxuto, saídos do banho, cheios de energia. Os 4 totalmente de preto e evidentemente felizes por estarem ali. Sem dúvida estão em casa, não há porque excursionar em outro lugar. Para minha surpresa, abrem o show com versão ainda mais pesada da música que mais tenho ouvido e cantado ultimamente: "I'm goin' up, I'm goin'down / in this skyscraper hell of a town..." (do último disco "Milbrook USA").

2. CANDY'S GOIN' BAD - Kooymans tocando com wah-wah, versão brilhante e com a surpresa do final extendido da versão original - só que bem mais pesado, é claro!

3. ANOTHER 45 MILES TO GO - Barry Hay anuncia: - "Here's Jojo!" e Kooymans canta acompanhado por TODA a platéia. Eu tinha me esquecido de que ele é um tremendo presepeiro; fica agitando a platéia todo o tempo.

4. LEATHER - Uma música curiosa: de um disco ("Grab It For A Second") que tem 8 músicas das quais 6 eu acho ESPETACULARES, eles elegeram esta “coisa” para fazer sucesso. Uma pena... mas é obvio que adorei. Um segundo guitarrista (de NYC) deixou o som mais denso - aliás, na versão original eles ainda tinham Eelco Geeling na segunda guitarra.

5. TWILIGHT ZONE - Versão hipnótica, o longuíssimo solo voando e passeando entre os falantes. Estarei sonhando? Tive certeza que sim. Se eu já tinha chorado muito de emoção durante a tarde, depois já na venue antes do show, e muito mais após o início, aqui abri o berreiro. Uma holandesa no degrau abaixo reparou e chamou a atenção do namorado.

6. LONG BLOND ANIMAL - PQP! A maior música de todos os tempos, ali, na minha frente, ao vivo! Long Blond Animal faz muito mais sentido nesta terra em que TODAS as mulheres são blondies (aliás, para quem gostar de lourinhas de olhos claros e pele branca com seios volumosos e estupendos saltando por decotes escancarados, esta terra é o PARADIS!!!).

7. FIGHTIN' WINDMILLS - Totalmente adequada para a Holanda, terra dos moinhos e das "vacas Atom Heart Mother". O Guitarrista convidado ficou no violão eletrico, Barry Hay mandou na segunda guitarra. A música que tem o verso mais marcante de minha vida, e que na adolescência cheguei a mandar gravar em uma placa: "Anything, but givin' in". Fightin' windmills, in the end... you win! Efeitos especiais: a pedaleira de Rinus Gerritsen faz o som sinfônico; e do meio para o fim, o som dos moinhos girando, bem mais alto do que no "Live 1977".

8. MY LIPS ARE SEALED - Nova. Reconheci porque já havia lido a respeito no site. Normalmente nunca gosto das músicas no Earring na primeira audição; sempre demoro umas 3 vezes para entender e mais 3 para gostar (o que aliás sempre me aconteceu com todas as bandas que idolatro); mas neste caso, foi - é óbvio - paixão à primeira audição.

9. GAMBLER BLUES - Excepcional musica do "Paradise In Distress": "I came here to gamble / not to dance tonight"... Marcada, pulsante, viril. Choro convulsivo esguinchando, o que não impediu por um único momento os olhos esbugalhados brilhantes absorvendo e refletindo tudo o que acontecia no palco. O eterno Bertus Bogers toca um maravilhoso solo de sax, um sax-rock, detesto este instrumento que prefiro chamar de "corneta", mas no caso dele (e de Andy Mackay), é um OUTRO instrumento...

10. BOMBAY - com 3 guitarras!!! Me esbugalhei de chorar, gracas a esta música eu fiz um enorme desvio em minha viagem à Índia só para visitá-la e poder cantar in loco: "Bombay seems / lost in dreams..." Um ritmo da bateria absolutamente contagiante, a platéia cantava e dançava e balançava os braços: "If I die... Kama Sutra is the reason why!".

11. WEEKEND LOVE - com 3 violas elétricas. A menina da fila da frente olhava mais para mim do que para o show, mas desta vez eu não estava chorando!... (Ela provavelmente achou que eu estaria porque Weekend Love é uma balada de sucesso). Daqui para o fim, o guitarrista convidado tocou em tudo ou quase tudo.

12. WHEN THE LADY SMILES, uma de minhas favoritas, se é que consigo ter favoritas. Introdução feita pela pedaleira de Gerritsen. O grito de Kooymans ("I know...") com distorção e delay, nunca vi algo assim.

13. GOING TO THE RUN - feita para um motociclista amigo da banda que morreu. Fabio Star adora ("He rides a bike instead of a car / I wanna be his friend..."). "Going to the run" significa "saindo para um passeio", estes passeios-esticada de moto de final de semana nos quais vai a maior galera.

14. JOHNNY MAKE-BELIEVE - a música que gostaria que tocasse em meu enterro (ou melhor, cremação).

SOLO RINUS GERRITSEN seguido por dueto com CESAR ZUIDERWIK. A cozinha do Earring destrói o Mundo na minha frente. Rinus está muito bem, dá o sangue por seu instrumento. A performance da banda é impecável, inesquecível. O baixo de dois braços era um prenúncio do que viria em seguida...

15. RADAR LOVE - Ladies & Gentlemen, Madames & Monseigneurs, Boys & Girls: eu já vi o Golden Earring tocar Radar Love ao vivo...

Com pouco mais de 1h40m o show acaba. A platéia do Earring tem um grito de guerra "we want more" que chegou até mesmo a ser o nome do lado 4 do LP "Live" de 1977. A banda volta, é claro.

ENCORE

16. SHE FLIES ON STRANGE WINGS - "Lonely as a night without you...". Música antiga em versão punk, destorcida, veloz, cruel. A esta altura a holandesa já tinha subido para o meu degrau, e dancava esbarra-daqui-esbarra -dali.

17. HOLY HOLY LIFE - demorei para reconhecer. Preciso ouvir mais Golden Earring...

Duas horas de show e eu estava emocionalmente destroçado. Falei para a holandesa: "You must have seen me crying for a couple of times...", e contei a história. Depois contei para o namorado dela, e então para um amigo do casal (que adorava música brasileira, "Planet Hemp for instance", ao que respondi "For sure"...). Começou a juntar gente, estava todo mundo curioso com aquela peça de cabeleira grisalha (deixei o cabelo crescer por 2 meses para este show, e meu cabelo cresce para os lados...), com camisa do Brasil com o nome da banda. Eu contava a história, e uma outra holandesa se chegou e falou: "But you left your country with all these women with big asses!..." e fazia gesto de mãos apalpando bundas salientes; "Here we women are all flat!". Com toda a educação que Papai & Mamae me deram, respondi: - "I prefer long blond animals...". A mulher ficou dançando e rebolando enlouquecidamente na minha frente enquanto eu falava da viagem para uma enorme galera.

No balcão de merchandise do "The 925's", os 4 da banda estavam lá. Dei efusivos parabéns, disse que era fã do Golden há 35 anos e que tinha feito a viagem exclusivamente para ver o show; mas que do jeito que o 925's é, dentro de 35 anos estarei fazendo uma viagem para vê-los... Os caras adoraram, a loura peituda e gostosinha do stand tambem adorou, comprei 3 CDs autografados pelos 4 (um e' para Marcela). Perguntei o que quer dizer o nome da banda, "it is nine to five, we work nine to five... but in fact nowadays we work from four to one!".

Na fila para entrar no camarim do Earring, a blondie do 925's passava para lá e para cá, sempre dando olhares e sorrisos sedutores e entregues. Aí disse: "I like you". Depois abriu o bolso da calça, apontou para mim, e apontou para dentro... Até que me agarrou e me sapecou um beijo - na bochecha. Estava indo embora.

No camarim, George Kooymans (bem mais alto do que eu) foi extremamente atencioso ao saber de minha história, e me convidou para entrar e beber alguma coisa - peguei uma coca, ainda ia pegar a estrada de volta. Barry Hay estava completamente alcoolizado, e quando falei do Brazil ficou falando: "I've been to Brazil two times...". Contei que sabia de Taubaté (a hilária historia que Fabio Star contou da passagem de Barry Hay por Taubaté, onde comeu "o melhor frango de sua vida"!!!), e ele balbuciou: "Taw-bah-tee... Uw-bah-two-bah...". Fiz a pergunta que sempre quis fazer: a letra de "They Dance" é sobre o Carnaval no Brasil? Os olhos de Barry brilharam, ele escavucou a memória e disse "YES, I made it in Sao Paulo, I had just visited a 'favela'... You got it man!, it is about the dancers of Carnival", eu emendei "too poor to strike a match / if you know what I mean", ele cantou um trecho errado, eu corrigi ("they dance to that voodoo rhythm"), EU CORRIGI BARRY HAY EM UMA LETRA DO GOLDEN EARRING!, enfim foi isto.

Ao final Rinus Gerritsen percebeu o quão emocionado eu estava, me abraçou para a foto, aí é que me caiu o mundo, não consegui mais parar de chorar. Falei para cada um três (Cesar já tinha ido embora) a mesma coisa: "you are the soundtrack of my life, thank you for everything, I came to the Netherlands just to see you", e Rinus respondeu "... while we are still standing...".

Foi isto. Que a sua vida tenha momentos tão sagrados quanto este. A chave está na última música do show: Holy holy life, sometimes is lonely, sometimes is sad, but sooner or later, they'll find you dead.

Holy holy life.

(mai/2008)

(Hearing Earring 3 de 4) Ajoc Festival 11/mai/08

Banhada, barbeada e de unhas cortadas, a Noiva saiu rumo ao show às 16h50m, mais de 5 horas antes do horário marcado. Preocupações: além de serem quase 100km de Breda (onde estava hospedado) até as cercanias de Mijdrecht, local do AJOC FESTIVAL (que mais tarde Rinus me disse se pronunciar “aioc”, assim como o time Ajax é “aiax”), o local – de acordo com o Google Maps – era no meio do nada! Some-se a isto o monte de voltas que dei em Tilburg, mais a ansiedade, 5 horas seriam de bom tamanho.

De ótimo tamanho! Após 90km de estrada a cravados 100km/h, peguei as vicinais que eram quase estadas de terra. Foi um passeio pelo interior da Holanda, com represa e muitos diques. É uma região que foi drenada e portanto está abaixo do nível da água. Com isto, a vegetação é muito verde e forte. Minha intensa pesquisa deu resultado: fui bater diretamente no local do Festival, uns enormes galpões armados no meio do nada alagado. Brandi os e-mails impressos e consegui estacionamento privilegiado. Eram 18h30m, e na entrada fui informado que os portões abririam às 20hs. Mico total, no meio do nada e com 90 minutos de espera!

A camisa amarela do Brasil reluz ao sol, e em 5 minutos o segurança do Earring veio me buscar lá fora. Falava pouquíssimo inglês, mas conseguimos nos entender: estava sensibilizado com minha jornada, e me adotou, me levando para os camarins, me conseguindo cerveja e finalmente uma pulseira que dava acesso a TUDO – até o palco! Fiquei zanzando pelo backstage, comprei uma segunda leva de camisetas que deixei no carro (free access, lembra?), conheci Jan van der Geest, nada menos do que o DESCOBRIDOR da banda quando crianças, e mentor até hoje. Jan está paraplégico há 2 anos, quando caiu de uma árvore (creio). Não fala inglês, mas me comuniquei com ele através de um casal que é parte da entourage. Fiz perguntas e elogios, e contei a história de minha vinda – todo mundo quer saber. Ele pediu meu cartão de visitas com endereço, e ME DEU SEU PRÓPRIO BACKSTAGE PAS! Algo como se você fosse a um show do Zeppelin e Peter Grant te desse o próprio backstage pass... Todos que me viam com aquele passe arregalavam os OlhOs...

Depois de me dar seu número de celular (“in case you need it”) e duas cervejas, o Segurança - Mr. John O’Hello, pronuncia-se “otchelo” – perguntou se eu queria comer e ofereceu que eu fosse para a tenda de ‘catering’, onde Rinus Gerritsen comia. Totalmente sem jeito restringi-me a uma salada e salmão, e FIQUEI QUASE 1 HORA CONVERSANDO COM RINUS! O cara é um gentleman, paciente, respondeu a todas as perguntas, sempre com sua cadela Suus (com um olho azul e outro castanho). Algumas respostas (editadas) estão a seguir.

M – Existem diversas músicas que não estão em álbuns oficiais. Por exemplo “I Need Love” que não consta do “Contraband” mas sim de sua versão americana “Mad Love” – que por outro lado não tem “Faded Jeans”. Ou então “I Do Rock’n’Roll”, “Yes! We’re On Fire”, “Die Bus” ou ainda a bela e antiqüíssima “The Song Is Over”, que consta de uma compilação lançada no Brasil e que jamais vi em lugar algum. Seria possível o lançamento de um disco “From The Vault”?

R – São músicas que ficaram prontas quando os discos já haviam sido lançados. No caso de “I Need Love”, os discos lançados nos EUA têm versões diferentes dos lançados na Holanda – veja “Moontan”, por exemplo. O mercado americano prefere músicas mais longas, enquanto na Holanda tudo se resume ao Top 40. “I Do Rock’n’Roll” foi um compacto. “Yes! We’re On Fire” foi encomendada pelo comitê olímpico holandês, que necessitava uma música-tema instigante. Não vamos ficar remexendo no passado, pareceria ‘raspagem de tacho’, ainda mais nesta era de You Tube, onde você pode encontrar qualquer coisa antiga; não faria sentido.

M – Você compunha muito no início da banda, mas não mais atualmente. Pensa fazer um álbum solo?

R – O processo criativo com o EARRING mudou bastante ao longo dos anos. Hoje George mora na Bélgica e Barry no Caribbean. Não é tão fácil colocar todo mundo junto e dizer “OK, agora vamos compor”. E mais, sempre foi muito fácil juntar todos no estúdio de George e começar a compor e gravar, e se as coisas não saíam bem, dizíamos: “OK, continuamos amanhã, amanhã dará certo”. Foi por isto que decidimos gravar o último disco (“Milbrook USA”) nos Estados Unidos: tínhamos um tempo de estúdio pré-determinado, e passagens de volta. Tínhamos uma pressão de tempo, e assim precisávamos acabar o trabalho em duas semanas. Ademais os estúdios americanos são muito bons e baratos. Talvez no futuro eu faça algum trabalho solo, mas não agora enquanto continuamos lançando álbuns e fazendo shows. Cesar já tem um trabalho extra, ele é um ‘one man show’.

M – Como vocês escolhem as músicas do setlist?

R – Algumas músicas não podem faltar, como “Radar Love”, ”Twilight Zone ” e ”When the Lady Smiles”. Em torno delas nós vamos agrupando outras músicas até ficarmos com um show coeso. Não podemos colocar três baladas em seguida, por exemplo, porque as pessoas vão começar a beber, a olhar para os lados e a bocejar (enquanto falava fazia os gestos e movimentos). Depois de uma balada tem que vir uma agitada; temos que manter o “beating”.

Showtime, eu não poderia estar mais feliz. Fiquei do lado de fora dos galpões até acabar o último show de suporte, e então entrei. Embora o lugar estivesse lotado, eu facilmente cheguei à primeira fila. E daqui a pouco uma mulher que também estava na primeira fila veio a mim e falou:
- “Meu marido tem uma camisa igual à sua, com o nome gravado nas costas.”
A esposa de Sjaak Neels! Sjaak é o “cyberbrain” e responsável pelo website do GE, e foi ele quem contatei do Brasil em janeiro e que me convidou para estes shows em maio. Respondi:
- “It was me who gave it to him!”

Pontualidade holandesa: assim como o gig de Tilburg, este começou às 22h05m. Mesmo setlist, mesma duração (cerca de 2h05m). Uma holandesa baranguinha era toda sorrisos e gentilezas a meu lado, conversamos bastante. Desta vez eu não estava tão emocionado como na primeira vez – virgindade acabada, ou como disse André Vasco-n “o primeiro filho é de vidro mas o segundo é de borracha” – ainda mais eu já sabendo o que iria acontecer, curti o gig com os mesmos olhos arregalados e esbugalhados, a mesma alma totalmente aberta, o mesmo sentimento de conquista plena, de felicidade completa. Gravei algumas coisas – assim como Gloug disse durante a execução de “The Other Side” na gig do AEROSMITH na Praça da Apoteose, “o riff de minha vida”, posso dizer o mesmo da versão de “She Flies On Strange Wings”, que na verdade nem é uma de minhas favoritas.

As gravações não ficaram muito boas porque a galera pulava enlouquecida, e o chão composto por tablados montados sobre o charco subia e descia acompanhando a cozinha do Earring. As roupas da banda eram exatamente as mesmas de Tilburg, espero que as tenham lavado (embora eu também estivesse com a mesma roupa de Tilburg, e sim, eu tinha lavado a camisa do Brasil). – “George is the man of the day, the guy of the moment. Here’s Jojo!”, diz Barry introduzindo “Another 45 Miles”. Mais uma vez assisto a duas horas do “guitarrista que não erra”, segundo Gloug.

Chove cerveja o tempo todo. O AJOC FESTIVAL é uma grande festa, e os holandeses ficam arremessando copos de cerveja cheios. É curioso: eles compram TONELADAS de tokens, depois pegam DEZENAS de copos de cerveja ao mesmo tempo. Nos balcões os copos são colocados pelas próprias atendentes em porta-copos que lembram nossos porta-ovos (de galinha) de papelão, com lugar para UMA PORRADA de copos de cerveja. O comprador sai com uns 20 copos, atravessa o salão até seus amigos, e dá-lhe birita!

A platéia pula alucinada em “When the Lady Smiles”, Rinus tinha razão. Durante “Johnny Make-Believe” estoura uma arruaça a 3 metros de mim, algo como uma roda de pogar que deu briga. A platéia está insana. E chove cerveja.

O solo “espacial” de baixo é bom para acalmar os ânimos. Durante o solo de bateria em “Radar Love”, Cesar se levanta e bate nos tambores suspensos atrás dele. Eles piscam e imagens são projetadas acompanhando o rítmo; lembra um pouco “In-A-Gadda-Da-Vidda”.

O show acaba e a esposa de Sjaak me leva para o backstage – lembre-se, estava com a pulseira azul “all areas access” – e saímos da platéia e SUBIMOS NO PALCO para ir aos camarins onde eu já havia passado a tarde. Eu já era figurinha marcada – a camisa do Brasil foi realmente um achado – e fiquei conversando com o motorista de George Kooymans. À tarde eu também tinha conhecido o irmão de Rinus, Rob Gerristsen, que é o empresário da banda. Alcancei Cesar Zuiderwijk saindo, e tirei a foto que não conseguira na primeira noite. Time to go home. Comprei uma coca e um hamburger (rrrámburrger, como falam eles, muito bom, meio apimentado, paladar wurst, diferente) e atravessei o imenso salão onde muito mais do que as estimadas 4000 pessoas se abarrotavam pulando, dançando, garotas falavam comigo e com todos, todo mundo abordando todo mundo, a música holandesa de festa parece aquelas coisas de São João, ufanas, triunfantes, bradantes, marchinhas. Levei vários banhos de cerveja. Na saída uma mulher (enorme!) da Segurança veio saber o que eu tinha achado do evento. E sutilmente mostrou que eu não podia sair levando embalagens descartáveis (risco de jogar no mato e poluir); tive que matar a coca ali mesmo.

Quando fechei a porta do Fox 1.2 preto, meu cheiro de cerveja empesteou toda a cabine. Eu tinha 100km de estrada pela frente, e uma certeza: se a Polícia me pegasse, estava FODIDO!

A saída do estacionamento não era pelo lado por onde eu tinha entrado. Fui enviado (em holandês) para uma outra saída bem distante, onde indaguei carregando em meu sotaque holandês:
- “Utrecht?”
A resposta foi em holandês. E de repente lá estava eu no meio do campo, no meio dos diques, no meio da noite, no meio do nada!

Foi difícil. Segui até encontrar uma vila – Mijdrecht, creio. Imagine o silêncio à 1 da madrugada em uma vila no campo. Ruelas sem saída. Ainda consegui encontrar um ciclista no meio da noite – mas ele só falava holandês, e estava totalmente bêbado! Felizmente (como sempre) eu estava com uma bússola e sabia a posicão relativa da estrada, e com as explicações que o bebum balbuciou (‘links’ e ‘rechts’ parece alemão) consegui chegar a uma vicinalzinha, depois outra, e finalmente a N219 que me levaria à A2. Ufa!

Não existe erro nas estradas holandesas: você vai a 100km/h fixos o tempo todo, não tem nem graça fazer conta de Horário Provável de Chegada, você sabe exatamente a que horas vai chegar a seu destino.

Breda, 2h30m da matina. Silêncio. Silêncio absoluto é o que você ouve a esta hora da madrugada em uma cidadezica holandesa caminhando do Estacionamento até o Hotel. Silêncio. Ainda mais se você estiver voltando de duas horas de rock and roll seguidas por uma festa barulhenta. Com cheiro de cerveja e a felicidade de 2 shows do Golden Earring na memória. Este foi o dia de sonho de qualquer fã de uma Banda de Rock.

(mai/2008 - jan/2010)

(Hearing Earring 4 de 4) Pink Pop Classic Festival 12/mai/08


O 3o show era já no dia seguinte, o open-air PINK POP CLASSIC FESTIVAL em Landgraaf, perto de Maastricht, 150km ao sul de Breda onde me hospedara para os primeiros dois. Isto significou muita correria: fui dormir às 4, acordei às 8, check-out às 11, estrada. No caminho fui ouvindo o 2nd Live, observando que todo o espetacular instrumental rítmico esporrento está lá, somente acontece que nos shows a guitarra é muitíssimo mais alta. Talvez os discos do futuro venham com opção de mixagem: um instrumento em cada canal, algumas masterizações pré-programadas (“flat”, ”original show”, ”recommended master”, etc) e o ouvinte poderá fazer sua própria mixagem. Tomara.

Programação do PINK POP CLASSIC FESTIVAL (após 16hs):
16:30 – 17:30 FISH
18:00 – 19:00 MANFRED MANN’S BAND
19:30 – 20:30 GOLDEN EARRING
21:00 – não sei UB40

Cheguei a Maastricht às 13h15m, correria absoluta, feriado nacional, área turística sem lugar para parar o carro, busca de hotel, descarreguei carro, esvaziei malas, banho, às 16h15m (15 minutos antes do horário do show do FISH) saí do Hotel. Trajeto de praxe: 25km de estrada, algumas rodadas dentro da cidadezica vizinha Landgraaf onde era o open-air, informações em holandês, estacionamento “Pers & Gast”, exibição do mail com o convite (“you have been included in the Golden Earring guest list”), parei o carro no estacionamento de gasts, mostrei de novo o mail... e pimba, pulserinha vip! Cinco e dez da tarde, entro em uma IMENSA área gramada cercada por tendas, barracas de comida e bebida, arquibancadas em estrutura metálica, feirão de CDs, DVDs, camisetas e todo tipo de rock and roll related materials, stands de official merchandising, um delicioso sol de primavera européia (é segunda-feira mas é alguma espécie de feriado nacional) e no palco FISH & Banda executando “Clutching at Straws” com guitarras distorcidas...

... e tive que cair no choro! Novamente chamando a atenção de todos com aquela camisa amarela (lavada às 3hs da manhã), mas era emoção demais, evento superb, MARILLION alive e meu último show do EARRING, too much for my peaceful heart. Peguei os 20 minutos finais de Derek Dick, ele ainda tocou:
- Clutching the Straws
- Faith Healer
- Incommunicado
- The Last Straw
De barba branca e ficando careca, Fish cada vez mais se parece com Peter Gabriel. Entre uma e outra música, o Peixe falou: - “It is sooo good to be here in Holland, with all these drugs, alcohol, sex and rock’n’roll !...”

Caguei para o show seguinte (Manfred Man, que tocou até um trecho de Smoke on the Water) e fiquei passeando pelo local do mega-evento. Descobri em um stand um disco de George Kooymans “Solo”, que depois Hans Muyson disse com olhos arregalados tratar-se de verdadeira raridade (e o próprio Kooymans, quando lhe mostrei o disco, riu e comentou sobre a capa:
- “Motorcycle Boy!... “).

Mais adiante em outra barraca encontrei e comprei DEZ Golden Earring remasterizados.

Os mictórios eram estranhíssimos, “quadrifacetados”, ao ar livre e misturados com os banheiros químicos femininos.

Showtime às 19h35m. Curioso como tem gente de todas as idades em todos os eventos na Holanda, não tem aquela coisa de “gueto” de idades que temos no Terceiro Mundo. Talvez esta seja uma das razões de serem tão mais cultos: desde cedo vão absorvendo os bons valores dos mais experientes, ao invés de começarem do zero como fazem nossos adolescentes. Na platéia, no gramado, nas arquibancadas, tinha gente não somente de todas as idades como também de todas as formas físicas, todas as roupas e todos os estados de percepção possíveis. Um festival é uma festa, e os holandeses são muito festivos!

3 gigs com o guitarrista que não erra. Para mim, em matéria de shows o ano de 2008 já acabou.

Foi uma versão compacta dos 2 shows anteriores, 10 músicas ao invés da 17 habituais e 70 minutos ao invés dos 125 de praxe. Durante a 4a música (“When the Lady Smiles”) o vocalista atravessou, teve que sustentar, a banda pulou alguns acordes, corrigiu e se acertou. Na seguinte (“Fighting Windmills”), novo erro! A partir daí eu cismei, e em “Long Blond Animal” achei que a banda estava confusa. Talvez fosse a sonorização, pois por outro lado achei que “Radar Love” teve sua melhor versão de todos os tempos, e “She Flies on Strange Wings” comprovou que é O riff. Chorei muito durante o show, estava me despedindo da banda. E o fecho dos 3 dias, “holy holy life, sometimes is lonely, sometimes is sad, but sooner or later they will find you dead”.

Fim de show, saí andando e por sorte encontrei a esposa de Sjaak que ia para o backstage. Minha pulseira era só de “gast”, e não “full access”, mas fui seguindo com ela... e entrei!, atravessei a lateral do palco e fui para o círculo de trailers das bandas no gramado atrás do enorme palco. A esta altura eu já conhecia todo mundo. Conversei com a esposa de George (irmã de Rinus), o motorista (está na foto abraçado com ela; em outra foto Mr. John O’Hello), os membros da banda (“here you are again!”) e até esnobei o FISH que estava sentado na grama a uns 10 metros de distância, bebendo com sua banda. Conheci a filha de Rinus, o filho de George e mais um monte de relatives. A filha de Rinus iria assistir ao show do UB40, de forma que ele iria ficar por ali. Acabei conversando com o cabra por mais quase 1 hora!

Quando saí do show – lembre-se que em alguns momentos achei a banda perdida – fiquei imaginando o que dizer quando me perguntassem sobre a gig. E decidi que falaria sobre Radar Love, pois tinha adorado a versão. E assim foi. Tão logo cheguei aos camarins encontrei Barry Hay, que foi logo perguntando:
- “What about the show?”
- “Best version of Radar Love I ever heard!”
A resposta dele se tornou um lema para mim:
- “If you say so, than it is so!”

SEGUNDA CONVERSA COM RINUS GERRITSEN

R – So what about the gig?

M – Best version of Radar Love I ever heard!

R – That means the others were not so good…

(Este Rinus é uma puta velha!…)

Conversamos – ou melhor, ele falou – longamente sobre futebol.

M – Do you support any team?

R – I like good football. In the past, Ajax (aiax) and Feynoord had good squads, but now they are just average.

Não vou reproduzir tudo aqui. Falou com entusiasmo sobre um goleiro brasileiro Gomes, segundo ele um espanto, não consegue entender como não é convocado para a seleção brasileira. Disse que todos os times holandeses têm 2 ou 3 jogadores brasileiros, garotos novos que usam a Holanda como “escada” para acessar o mercado europeu. Falou sobre crianças jogarem bola na rua no Brasil, o que ajuda a despertar o futebolista, e que não acontece na NL.

(Posteriormente Gloug me disse que eu deveria ter dado a ele a camisa da seleção brasileira durante esta conversa. É verdade, não me ocorreu no momento, verdadeiro insensível).

Mostrei os discos “remasterizados” que tinha comprado e perguntei se a banda de alguma forma participa do processo de remaster. Ele manipulou os discos com desprezo.

R – This is old stuff, from the time of Red Bullet Records. They are trying to make new money from worn things. (Obs – não tenho certeza se “worn” foi o termo utilizado).

Rinus definitivamente não gosta de olhar para trás. Glauco encomendara uma pergunta para George Kooymans: - “Have you ever played ‘The Lonesome D.J.’ alive?”; Kooymans respondeu que pouquíssimas vezes, mas que esta é uma excelente música para os acústicos, e que ia pensar em incluí-la em um próximo “Naked”. Portanto, se pintar um Lonesome D.J. acústico, devemos a Glauco Guedes. Fiz a mesma pergunta a Gerritsen. ‘The Lonesome D.J.’ é de SWITCH, álbum de 74, e portanto a resposta não me surpreendeu:

R – We sometimes put songs on albuns and when we play them alive they don’t work. I do not know if this is the case of this song – in fact, I don’t have the slightest idea of what song you’re talking about!

M – Do you ever listen to old albums?

R – Never.

M – Even if it’s only to remember the songs, maybe one could be included in a tour…

R – Never. I also do not see the videos. I do what I feel at the moment, it is pure improvisation, not rehearsed. I enter into a trance during my solo, and afterwards I don’t want to see myself lying on the ground, rolling on the ground with the bass, or licking it. That’s me?!? No! That’s not me!

Ele me apontou a família, o irmão empresário, a irmã que é esposa de George. Eu já estava íntimo o suficiente para dar uma sacaneada:

M – In Australia I saw a shirt written: ‘Don’t Yoko my band!’

R – (rindo) Have you ever seen the movie ‘Spinal Tap’? You got to see it, it shows everything that happens to a rock band, everything! When you have success, when you fall, the influence of relatives, the clichés, “let’s go to Japan”, the guitar player surrounded by new guitars still factory sealed, the expectation of releasing a new record and only 3 fans showing up for the autographs, it’s very funny! You keep imagining who wrote it, because it’s everything there!

As últimas palavras que Rinus me disse foram as mais marcantes:

R – Sometimes in a gig nothing works out well. Yesterday (AJOC Festival, De Ronde Venne) nothing was good: I had problems with equipment, sound failed, you go out home thinking ‘I don’t wanna do this anymore’. But in the following day there is a good show – I think today was very good (curiosamente eu tinha achado este 3o. show o menos bom) and then it is OK. And then we have someone like you coming all the way from Brazil only to see us, and that makes us think: we’re doing it well, it is worth, that’s what we play for. Thank you for coming, those things are good for us, are very important, make us want to continue.

Eu tinha pensado em terminar este relato dizendo “se você tem dúvidas se os deuses existem, eu sou testemunha que sim. Convivi com eles durante 3 dias”; mas nem isto Rinus Gerritsen deixou de pé:

R – You have lived with us for three days, have seen our lives, have seen our families. You have seen we are only common people.

Não Rinus, vocês não são pessoas comuns; são deuses que levam a vida de pessoas comuns.

Voltei para casa dirigindo muito devagar, curtindo a enormidade disto tudo; de ter George Kooymans me falando: - “See you next time!”.

Holy holy life.

Nota – setlist GOLDEN EARRING at PINK POP CLASSIC:
1 – TWILIGHT
2 – 45 MILES
3 – LEATHER
4 – LADY SMILES
5 – FIGHTIN’ WIND
6 – LONG BLOND
7 – GOIN’ FOR THE RUN (different intro)
SOLO BAIXO
8 – RADAR (best version ever)
ENCORE
9 – SHE FLIES (riff espetacular)
10 – HOLY LIFE

(mai/2008 – jan/2010)

Iggy and the Stooges e Nine Inch Nails: Festival Claro Que É Rock, Morumbi, 26/nov/05

Ainda resta uma esperança.

Quando ando pelos Shoppings, olhando vitrines e as modas que desfilam, me pego pensando que o que mais me faz falta no passado... é o Bom Gosto. Quanta saudade do Bom Gosto! Hoje, pitéus maravilhosos desfilam orgulhosas dentro de modelitos que só fazem revelar o imenso vazio de bom gosto que existe dentro de seus deliciosos corpitos e vazias cabecitas.

Mas... o one-day-open-air-festival Claro Que É Rock, em 26 de novembro de 2005 na longínqua Chácara do Jockey, um descampado além-Shopping Butantã, veio para me mostrar que AINDA RESTA UMA ESPERANÇA!

Eu me programara para assistir a boa parte dos shows – do comentado Cachorro Grande às 16h40m até o final do Nine Inch Nails às 03h30m da matina, passando por Moptop, Good Charlotte, Fantomas (de Mike Patton, que à última hora substituiu o Suicidal Tendencies) e Sonic Youth. Mas dizem que a vida se dá em ciclos de 7 anos, e o oitavo ciclo que iniciei há pouco mais de 5 meses vem demonstrando ser o ciclo da fragilidade orgânica – e uma violenta primeira sinusite de minha vida desandou em uma violenta primeira dor de dente de minha vida, e acabei focando apenas no supra sumo do evento: IGGY AND THE STOOGES, programados para as 23h15, e NINE INCH NAILS, que não conhecia porém prometia tudo, para as 01h55m.

O sempre presente e recém-solteiro Fabio Star colocou o carro à disposição, e seguimos por volta de 21hs. Fomos com casacos pesados, o que se revelou sapientíssima decisão apesar de estarmos quase no verão. Mas é São Paulo.

A chegada a um one-day-open-air-rock-festival é sempre aquela eletricidade no ar, ambiente cheio de energia e as melhores vibrações que este Planeta pode produzir. Logo na entrada vi ao longe Solange BF de casaco vermelho e maridão a tiracolo, ainda mais bela os 41 anos do que era aos 18. Aliás, 1964 foi um ano pródigo na produção de belas Mulheres.

Quem quiser ver Mulheres Maravilhosas e seus Decotes Voadores deve ir a um show de Rock, preferencialmente pesado. Roupas, pinturas, ousadias, nada é demais, tudo é belo e erótico e excitante e clima-de-rock. A eletricidade é livre, com a colaboração de todos, principalmente das Deusas – e nesta hora são todas Deusas-Cachorras-Tchutchucas-Popozudas-Preparadas. Deus, sem dúvida, é Homem...

Dois palcos gigantescos nas extremidades do imenso gramado, lembrando muito a Cidade do Rock no Rio. E uma surpresa na chegada: os shows estavam no horário! A alternância de shows e palcos permite que um palco seja preparado enquanto um show rola no outro lado, e assim chegamos no início do esquisito Flaming Lips, com o palco completamente tomado por gente vestida de bichinhos, sapos, sol, papai noel, pato, porco espinho, trocentas figuras nada-a-ver, o que fazia com que a música ficasse nada-a-ver. Assistimos a uma versão de "Bohemian Rapsodhy" com letra no telão (como se alguém não soubesse) que fez todo mundo a cantar junto. Saímos do tumulto rumo aos fétidos banheiros químicos e em seguida já fomos tomar lugar junto ao Palco A, para a performance de Iggy Stooge. Sábia decisão: faltavam uns 20 minutos para o término do show do Flaming Lips, e foi possível pegar uma ótima posição a uns 50 metros do palco.

IGGY

A primeira surpresa foi a bestial quantidade de fotógrafos na gigantesca boca de palco: sem exgero, eram mais de 100. Uma massa humana aguardando o cantor e a banda que o ultra precursor Gloug Guedes me fazia ouvir em 1970, quando tinha 12 anos e eu 14. Inacreditável: os discos dos Stooges devem ter vendido umas mil cópias na época (no mundo todo!), e Gloug, O Homem À Frente De Seu Tempo, foi um dos que comprou e me fazia ouvir aquele esporro através das paredes.

A banda se posta no palco; na lateral, Iggy pula frenético, parado em um mesmo lugar, parecendo um injetado lutador de boxe se aquecendo eufórico antes de uma final de pesos pesados, babando, espumando, pedindo, exigindo e implorando que a banda começasse o massacre. E veio “Loose”, e a partir daqui vai ser difícil manter a racionalidade e a compostura nesta narrativa.

Você pode imaginar a gesticulação do Iguana com o microfone com fio enquanto urrava: “I stick it deep inside, you know I stick it deep inside... ‘cos I’m LOOSE!”. Ninguém sabia o que fazer: a platéia pulava ensandecida, a centena de fotógrafos corria para um lado e para outro tentando acompanhar o demente, a porra da Claro encheu a boca de palco com aqueles imensos e completamente irritantes balões de propaganda que a massa ficava jogando de um lado para outro – isto me lembrou um show da Legião em Recife em 1986, quando durante a execução de “Geração Coca-Cola” a Pepsi jogou estas mesmas porras de giga-balões na platéia, a diferença é que Renato Russo ficou transtornado e começou a urrar: -“DESTRÓÓÓIII!!! DESTRÓÓÓIII!!!” e a platéia não se fez de rogada, e não esperou um instante e rasgou, destruiu, arrebentou completamente e instantaneamente as porras dos giga-balões de propaganda, foi muito lindo.

Iggy continuava stickin’ it deep inside, sem camisa e com a calça caindo cada vez mais, no final estava com a bunda completamente de fora, rebolando sem parar mesmo depois da música acabar, achei que fosse mostrar o pau, me lembrou uma capa de um jornal inglês de música que comprei em minha very first visit to São Paulo circa 1978, com Ronnie Garcia e Gloug, viemos atrás de artigos de Rock na loja Freedom na Alameda Lorena – na época o Rock ainda apenas balbuciava em Terra Brasilis, e tínhamos que vir a Sampa para comprar uma reles linguinha dos Stones de pendurar no pescoço – e encontramos um jornal cuja capa era um nu frontal de Iggy, inacreditável, calça quase no joelho mostrando uma portentosa jeba volumosa, não é à toa que ele gosta de se exibir.

Prossegue o show com ensadecidas versões de Down On The Street, 1969, TV Eye, todas as músicas dos dois discos “The Stooges” e “Fun House”. Versões modernas e poderosíssimas, Iggy anunciara em entrevista que eles só sabem tocar estas 16 músicas, "então vocês não vão ter muita opção"... e nem precisava. Veio aí a maior surpresa, que me fez ver que ainda resta uma esperança: quando cantou “I Wanna Be Your Dog” a massa INTEIRA berrava, urrava, pulava e se esgoelava sabendo TODA a letra de cor!!! Eu FILMEI isto, tenho a prova! Era impossível acreditar: aquele disco que só vendeu mil cópias no Mundo todo em 1970, que eu ouvia através das paredes tocado por um irmão de 12 anos... e agora todo mundo cantando, no Brasil??? Juro que até agora ainda não consegui entender ou acreditar, não tivesse eu filmado quase o show inteiro pensaria que era efeito do febrão que me queimava (e só o febrão...).

Não pude resistir e telefonei para o Brother Gloug, tentando convencê-lo a ir ver o show no dia seguinte na Cidade do Rock no Rio na madruga de Domingo para Segunda, mico total, é na PQP. Ouvindo a balbúrdia ao fundo, Glauco definiu Iggy: -“É um Demente a Deus...”.

Durante a execução de “No Fun”, o apocalipse. Iggy pulava na platéia enlouquecida, chamava todo mundo para subir no palco, e começou a invasão. Os seguranças não sabiam o que fazer, os invasores arrancavam o microfone com fio de Iggy e urravam “No Fun!” e devolviam o microfone e se voltavam para a platéia e abriam os braços em uma exultação de vitória e alegria; chegamos a ter um duelo de guitarras onde um membro da platéia tocando air guitar (ou seja, guitarra invisível) DUELAVA com Ron Asheton, que respondia e correspondia! O bolo de gente ficou indo e vindo para cá e para lá na boca de palco ao longo de toda a música, balbúrdia descontrolada, platéia hipnotizada, rock de primeiríssima qualidade, emocionante, ainda resta uma esperança.

Por diversas vezes ao longo do show o Stooge chutou as câmeras que o espionavam de baixo para cima, ele estava andando e de repente pimba! um bico na câmera, e o cameraman fugia assustado em busca de algum outro lugar, como um cachorro que levou um bico de bicho furioso, um Iguana insano.

Final do show, palco apagado, era hora do Sonic Youth no Palco B, mas Iggy voltou e começou a urrar no palco deserto: -“I don’t give a fuck if you are the Government, if you’re fuckin’ MTV, turn on the lights! TURN ON THE LIGHTS, I wanna see the people!”, as luzes se acenderam, a banda voltou, e Iggy emendou um bis absolutamente não protocolar, depois disto foi quase expulso do palco, a banda saiu mas ele continuou lá rebolando, saiu rebolando, os Stooges são muitíssimo bons – ou ficaram bons – mas sem dúvida são a banda de apoio de um showman único, legítimo, hilário, demente a deus.

Demos uma olhada no Sonic Youth mas optamos por encarar um rango, e pegamos uma das monstruosas filas, cheias de gatas maravilhosas de todos os tipos, platéia completamente eclética com todos os modelitos de roupas e tribos, um happening ecumênico. Finalmente, após uns vinte minutos cheguei na frente da fila e pedi um tão desejado pedaço de pizza, ao que ouvi “aqui só vende cheeseburgersalada, pizza é lá do outro lado”, fiquei puto (comigo mesmo) mas encarei o delicioso cheeseburgersalada e um tonel de Coca. E voltei ao mesmo Palco A para esperar o Nine Inch Nails.

Eu nunca ouvira o NIN, mas além de ótimas referências da galera semi-rocker da Credicard (“é tudo de bom!”) era ainda o show de encerramento da noite, o que só podia significar algo no mínimo promissor. Pegamos um ótimo lugar, e a esta altura o assédio feminino já perdia o pudor, vejam vocês, até um doente grisalho é peixe (por falar em Peixe, saudações Romário Artilheiro do Brasileirão), mas não era para isto que eu estava lá, aliás nunca é. O Show do Sonic Youth não acabava nunca, talvez bom, porém do tipo viajandão, interminável, a platéia já aglomerada no outro palco para o Nine Inch... e dá-lhe zumbido de guitarra distorcida, deve até ser legal, mas ali tudo o que a galera pedia é o mesmo que o Dinho suplica no final de “Uma Arlinda Mulher” no delicioso disco dos Mamonas: “pelo amor de deus, PAREM COM ESTA PORRA!!!”

NINE INCH NAILS

Na montagem, o palco já mostrava o que seria, e a abertura nada deixou a desejar. Uma estonteante tempestade de luzes, cascatas estroboscópicas, fumaceira (na platéia também), spots, postes de luz piscante multicolorida, massa sonora, o famoso rock industrial, pesado, massacrante, fulminante, eficiente, empolgante, brilhante, não deixando pedra sobre pedra. Me lembrou o magistral (aqui eu vou ser espinafrado) show do Pet Shop Boys no TIM Festival em 2004 no Jockey em SP thanks to GustaFer, também um massacre sonoro de raríssimo e estupefaciante bom gosto visual. Músicos e músicas perfeitos (em ambos os casos), a platéia delirava com o NIN, filmei bastante pois não tinha confiança de que minha memória pudesse me dar a certeza da coisa ter sido realmente tão boa. Pois foi. Não consigo entender como alguém que já conhecesse o Nine Inch Nails, e achasse “tudo de bom”, possa ter deixado de ir a um espetáculo magistral destes (sim, isto é uma chamada). É disto que vamos nos lembrar aos 80 anos de idade, em minha opinião é na Música que o Ser Humano mais se aproxima do Divino. É disto que mais vou sentir falta quando finalmente deixar para trás este corpito decadente e decrépito: da Música, do Rock. And Roll.


PS - PEARL JAM no PACAEMBÚ em 02/DEZ

Lotação adequada, acessos adequados, público eufórico, puta show. O curioso é que no fundo se trata de uma banda de garagem, como todas estas coisas de Seattle, e não consigo entender tamanho frisson. Mas aqui o organismo não resistiu, pois já eram quinze dias escarrando carnegões esverdeados, e debaixo de chuva gelada e com convulsões e calafrios de febre tive que ir embora no meio do show, graças à imensa compreensão da adorável Ane (que é muito fã da banda). O principal registro é que a venda de cerveja estava proibida, mas o canhamo liberado. Assim, qualquer que seja o seu barato, vá abastecido para seu próximo show...

Seqüência para os próximos dias: Marcelo Nova na quinta-feira, Skank na 6ª (festa do trabalho), Dream Theater no sábado, Dream Theater novamente no domingo, Titãs na segunda (outra festa de trabalho). Na terça devo estar cuspindo sangue. Mas não tenho alternativa: Always Rocker...

(dez/2005)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Tirando os pingos dos “iis”

Embora de uso bastante corriqueiro, não existe dúvida quanto ao uso da palavra “naiscer”: ESTÁ ERRADO!

No entanto, algumas muitas pessoas acreditam que a palavra “loira” esteja correta. Graças aos usos & costumes, já foi até mesmo bater no Aurélio.

Mas “loira” é uma corruptela do original “loura”. Como corrigir um erro já absorvido por grande parte da população do país do Presidente Molusco?

Proponho simplesmente que as blondes originais sejam chamadas de louras, e que aquelas que pintam ou tingem os cabelos sejam chamadas de loiras. Isto traria diversos benefícios:
- incorpora à linguagem um termo que é erroneamente utilizado;
- distingue as louras originais das loiras geladas; e
- traz informações adicionais (e ocultas) sobre a dama com quem você está conversando!

(jan/2010)

As linhagens masculinas e femininas

Não vejo qualquer sentido em o sobrenome do Pai ser o mais importante e mandatório, qualquer que seja o sexo da criança.

Isto podia funcionar quando os Homens detinham o poder, época que já passou. O casamento e a fidelidade somente interessam ao macho da espécie, que assim pode afirmar com (quase) certeza que “o filho é Meu”. Se não houvesse fidelidade e todos transassem com todos, a Mulher continuaria sabendo quem são seus filhos, mas o Homem perderia este conhecimento. Casamento e Fidelidade interessam primordialmente ao Homem, que assim pode “carimbar” seu filho com seu sobrenome.

Uma vez que (conceitualmente) não vivemos mais sob a lei do mais forte, sugiro que os sobrenomes sejam passados de Homem para Homem e de Mulher para Mulher. A Filha recebe o sobrenome feminino de sua Mãe, que por sua vez foi batizada com o de sua própria Mãe e da Avó. Igualmente o sobrenome masculino passa do Avô para o Pai e deste para o Filho. Teríamos assim “linhagens” consistentes e identificáveis: “as Gurgel são feiticeiras poderosas”, “os Sepa são conhecedores da alma”, “as Brandão são Mulheres completas”, “os Oliveira são excelentes goleadores”, etc.

Na estrutura atual, não temos transmissão de conhecimentos, ou nada que escape ao andar de bêbado dos sexos de filhos, netos e bisnetos. Os sobrenomes são um carimbo casuístico e pouco úteis, à única exceção da identificação pessoal. As nobres linhagens se perdem no acaso.

(jan/2010)

Porque não fiz vasectomia

Quem me conhece sabe que ABOMINO crianças, e que poucas idéias me soam piores do que a de ter filhos urrentos e cagantes. Porque, então, não fiz vasectomia?

Aos 18 anos eu pensava em fazer. Mas não sabia o que iria pensar quando tivesse 28 anos.

Quando fiz 28 e continuava querendo, fui a um Urologista. Perguntei por custo, risco, reversibilidade e sua opinião pessoal. Ouvi que para ele seria ótimo, pois era uma intervenção extremamente simples (podia executá-la no próprio consultório) e cara, e portanto bastante vantajosa para ele. Risco, quase nenhum. Quanto à reversibilidade, não tinha como afirmar nada, pois a operação consistia em cortar um duto quase capilar que conduz os espermatozóides. Isto não afetaria a ejaculação, pois os espermatozóides são menos de 1% dela (ou coisa que o valha). O problema poderia ocorrer à época da eventual reversão: caso muito tempo tivesse passado, por melhor que fosse a “solda”, meu organismo poderia já ter “aprendido” que a produção de espermatozóides era desnecessária, e simplesmente ter descontinuado tal produção. Assim, embora corretamente executada, a operação de reversão poderia portanto ser mal sucedida.

Nunca pensei em ter filhos – a bem da verdade, aos 53 anos de idade ainda não tive UM ÚNICO SEGUNDO na vida em que achasse que deveria ter tido alguns pimpolhos para me drenarem o tempo, a grana e a paciência – mas este último argumento me levantou o alerta: se o organismo podia aprender que a produção de espermatozóides era desnecessária e então descontinuá-la, ele poderia igualmente “aprender” que uma vez que não tinha espermatozóides para conduzir, a produção do líquido seminal protetor (os restantes 99% da ejaculação) também não era necessária... e igualmente descontinuá-la! E a partir daí, quanto tempo até o organismo “aprender” que, afinal, a ereção TAMBÉM não era necessária?!?

Não, obrigado. Deixa os canos.

(jan/2010)

Nosso condicionamento

Entendo que o condicionamento incorreto a que somos submetidos desde a infância seja responsável por um desnecessariamente alto número de frustrações pessoais.

Somos educados – condicionados – ao “casamento para sempre”, “the one and only”, “forever and ever”, “até que a morte os separe’, etc. E esta permanência não é natural no Ser Humano; não é natural sequer em nosso Universo.

Nascemos para viver uma infinidade de experiências; para a diversificação, para a muliplicidade. Deveríamos aprender com a observação e a experiência que NADA dura para sempre. Nada: nem uma árvore, um produto, uma espécie, um planeta, uma galáxia. Nem mesmo o próprio Universo.

Mas o amor e o relacionamento – ah, isto tem que durar para sempre! O amor é eterno, o amor é infinito, meu deus, quanta bullshitagem.

E assim, ao descobrirem que aquilo que pensaram que iria durar para sempre NÃO VAI durar para sempre, as pessoas se frustram. Ao invés de aproveitar e curtir o bom período que tiveram, se sentem fracassados. E o que houve de errado? Nada – a não ser o condicionamento que pautou suas expectativas.

Também eu passei por tal engessamento mental, e me é difícil me libertar destas talas de raciocínio. Mas sendo gerações com cabeças e caminhos bem mais abertos do que os das anteriores, temos a obrigação de romper com esta modelo tradicional defasado, descabido e frustrante.

(jan/2010)

Assim caminha a Humanidade

Saio (sempre) a pé pelas ruas. Alguns carros desrespeitam o sinal vermelho. Alguns ciclistas em alta velocidade – inclusive nas esquinas! – quase me atropelam. Tenho que andar com cuidado, temeroso, esquivo. Ou então alguns atletas passeando com seus pitbulls e rotweillers, me forçando a desviar, sair da calçada e andar pela pista de rolamento. Quem é estúpido de passar junto a um doguinho destes?

Saio (muito) de moto. Alguns carros mudam repentinamente de faixa, sem aviso ou lógica alguma. Algumas pessoas atravessam as ruas fora da faixa de pedestres, uma baderna total colocando a si e aos motociclistas em perigo. Algumas bicicletas ziguezagueiam pela pista. Outras motos forçam a barra. Se não zunir entre os carros, você é um empata-foda.

Saio (pouco) de carro. Engarrafamentos intermináveis. Algumas motos tiram finos, forçam a barra, se sentem no direito de fazer qualquer coisa, inclusive e principalmente desrespeitar as leis da civilidade. Alguns pedestres no meio da rua não esperam o sinal fechar para atravessar, e muito menos vão até sua faixa de direito e dever. E ultimamente alguns ciclistas “descobriram” que se andarem pelo meio da rua atrapalhando o trânsito se tornarão tão civilizados como os holandeses, ou então receberão por osmose e milagre uma milenar cultura chinesa.

Algumas pessoas estragam a vida de muitas, sejam eles pedestres, ciclistas, motociclistas ou motoristas. Assim caminha a Humanidade.

Ao menos em nosso País.

(jan/2010)

Nosso asfalto é nosso País

A maior decepção que tive ao me mudar do Rio para São Paulo em 1982 foi encontrar o mesmo asfalto porco nas ruas. Ingênuo, eu tinha a ilusão de estar me mudando para o Primeiro Mundo...

Acho que nada tem mais a cara do País do que seu asfaltamento. Ele mostra com exatidão a forma que resolvemos as coisas: com pressa, com desamor, de qualquer jeito. Não existe empenho em fazer bem feito; o importante é acabar logo, de qualquer jeito. Ficou um horroroso remendo aparente? Não tem problema. Vai abrir um buraco de novo daqui a 3 meses? Não sou eu quem vai consertar. O motorista vai passar por intermináveis solavancos ao dirigir por cima de calombos desnivelados? Problema dele. Danem-se todos, eu fiz a minha parte. Fazer bem feito não é parte do contrato e nem obrigação moral. Honra? O que é isto?

E assim construímos nosso País. Com horrorosos remendos aparentes. Com pressa e sem orgulho. Sem nos importarmos com os outros. Sem nos importarmos com nosso País.

Sem nos importarmos nem mesmo conosco.

(jan/2010)

Comemorando o gol

É comum vermos na televisão jogadores comemorando gols correndo em direção às câmeras de tv e urrando: - “Meu filho eu te amo!” ou então levantando as camisas para mostrar underwear com frases do tipo “Só Jesus salva”.

Imagine um Caixa de Banco gritando “Eu amo meu filho!” depois de autenticar uma ficha de compensação. Ou então o próprio jogador de futebol correndo na direção das câmeras e bradando:
- “A comida da Mamãe é uma delícia!”
- “O restaurante da Mamãe é ótimo!”
- “Eu adoro coca-cola!”
- “Quero te comer, Gisele Bündchen!”
E assim vai.

Como estabelecer limites? Pessoalmente acho que não existem limites: ou vale tudo, ou não pode nada. É absolutamente ridículo ver a seleção brasileira com camisetas religiosas após uma conquista. Não é “a pátria de chuteiras”; não estão me representando. E, mais importante, não é para isto que estão sendo pagos e filmados.

Alguém já disse que o importante é a obra, e não o artista. Se imprensa e televisão continuarem exibindo este tipo de comportamento, ele continuará se perpetuando. Não é que a culpa seja dos meios de comunicação; mas a responsabilidade é. Não havendo divulgação, não haverá o gesto ignóbil.

O que remete a alguns comentáros em entrevistas após uma vitória: -“ Deus estava conosco”. Isto significa então que Ele não estava com os outros?!?

(jan/2010)

Like a Prayer

(Disclaimer: não creio que a oração atribuída a São Francisco tenha efetivamente sido criada por ele.)

Imagine se você inventasse uma oração: “onde houver uma Mulher insatisfeita, que eu leve o orgasmo; onde faltar um artilheiro, que eu faça mil gols”; e assim por diante. Seria tachado no mínimo de arrogante, ou egoísta, provavelmente bem pior.

Mas se disser ou cantar: “onde houver trevas, que eu leve a luz; onde houver erro, que eu leve a verdade; onde houver tristeza, que eu leve a alegria”, você estará fazendo uma coisa nobre; estará rezando!

Note-se que esta oração não pede para acabar com as trevas, o erro ou a tristeza. Se elas acabarem a oração não terá sido atendida, pois o pedido era que EU levasse a luz, a verdade e a alegria!

Pessoalmente preferiria uma oração com menos “que EU faça e aconteça”, e mais humildade.

É claro que este tipo de raciocínio já me valeu todo tipo de críticas. Pelo jeito, eu não levo a Luz...

(jan/2010)

A maior invenção

Sempre aparecem pesquisas e questionamentos sobre qual seria a mais importante invenção da História. A tendência sempre é que inventos mais recentes sejam considerados mais importantes (algo como o pífio ciscador Ronaldinho Gaúcho sendo considerado um ótimo jogador de futebol; mas isto já é uma outra história...). Assim, Celular e Internet têm sido a “bola da vez” nas respostas a esta pergunta. E a Roda sempre foi um “all-time favorite”.

Li certa vez que a mais importante invenção seria o Elevador. Graças a ela, prédios altos puderam ser construídos, o que gerou concentração de habitantes nas grandes metrópoles, migração do campo para a cidade, e como conseqüência TODAS as demais invenções. Belo ponto.

Naci em um mês de junho. Com 6 meses de idade enfrentei meu primeiro verão, e fiquei com um “colar” de brotoejas em torno do pescoço, uma crosta contínua que descia até a metado do peito. Levado ao médico, foi diagnosticada uma alergia ao calor; a solução seria levar o pimpolho para uma estação de águas. E assim lá foi marcinho passar 3 meses na casa de sua (hoje centenária) tia-avó em Cambuquira (MG).

Um ano depois, novo verão e a volta do colar de brotoejas. Nova ida ao médico, e o mesmo diagnóstico: o menino é alérgico ao calor! Meu Avô solucionou o problema: comprou um dos primeiros aparelhos de ar condicionado, que à época precisavam ser importados sob encomenda. Desde então passo os verões quase que dentro de uma bolha.

Eu posso passar sem celular. Posso passar sem Internet. Posso passar sem Elevador. Até mesmo sem a Roda.

Mas não vivo sem Ar Condicionado...

(jan/2010, verão)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Tire a mão das minhas bolas...

... e o dedo do meu cu!

Não tenho irmãs, o que gerou um desequilíbrio em minha formação: a falta de convivência diária e direta com Meninas. Para tentar resgatar um pouco deste descompasso, por muitos anos fui assinantes de revistas tais como NOVA, CLAUDIA, etc, além de leitor de qualquer ELLE ou similar que me caia às mãos. São boas revistas - a NOVA tem fotos excelentes!... - mas de vez em quando sou surpreendido por matérias um pouco descabidas.

Me refiro a artigos do tipo "coloque pimenta na relação com seu Namorado", ou coisa parecida. Vira e mexe pinta um conselho como "acaricie (com cuidado!) os culhões de seu Homem para retardar a excitação", ou então "enfie (com delicadeza!) um dedo no brioco de seu cabra, pois é uma zona erógena e ele vai subir pelas paredes".

Bem, este tipo de coisa nunca me apeteceu, e imaginei que eu fosse "aquele amante à moda antiga". No entanto passei a fazer uma enquete entre amigos e conhecidos, e surpresa: NINGUÉM gosta destas coisas! De 32 indagados, somente 1 chegou a dizer: "até que se for do jeitinho certo..."

Assim, se a leitora de NOVA brincar com as bolas do garotão, provavelmente vai conseguir retardar a excitação... por várias horas! E se for fazer fio-terra, ele vai subir pelas paredes... de raiva! E ainda vai voltar aos folguedos receoso de que a "brincadeira" se repita.

Fico imaginando quem é que escreve este tipo de artigo para as revistas. Ou com que tipo de Homem ela (ela?) sai...

(dez/2009)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um Panda no Natal

Como li por aí, o problema não é o que você come entre o Natal e o Ano Novo...

... mas sim o que você come entre o Ano Novo e o Natal!

Uma curiosidade (que a mim parece fazer sentido): aparentemente ao nos encontrarmos com um grupo de pessoas que somente encontramos de tempos em tempos, exitiria uma tendência de repetir a roupa. A explicação é que o astral que tal grupo nos transmite tende a ser o mesmo, e portanto você tenderia igualmente a se sentir e se apresentar da mesma forma que antes, caso não os veja há tempos e não lembre qual roupa usou na última vez. Portanto, se neste final de ano você vai encontrar familiares ou amigos com os quais só topa uma vez por ano, é melhor usar alguma roupa comprada durante o próprio ano! Se não, o risco de repeteco é grande...

E lembre-se: não confundir "jingle bell" com "dingleberry"!

Merry Christmas and Happy New Year.

(dez/2009)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Quanto custa 1 grama de cocô?

Uma Empresa tinha uma mega-famosa übermodel como garota-propaganda.

Para comparecer a um evento da Empresa, ela cobraria US$ 15 mil para permanecer durante 1 hora.

O que gerou a indagação: e se ela for fazer um cocozinho? Caso levasse 4 minutos no toilete, a matéria fecal teria custado US$ 1 mil! Supondo uma "produção" de 200g, conclui-se que 1g de cocô da mega-famosa übermodel custa US$ 5!

Mais caro do que muita droga...

(dez/2009)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Citações: Ética

Existe uma citação sobre Comportamento Ético atribuída a Nietzche que considero definitiva. Seria algo mais ou menos assim:

- “Comportamento Ético é aquele que se fosse adotado por todas as pessoas da Terra, ainda assim a convivência seria possível”.

Duas outras frases me ocorrem, ambas derivadas do comportamento do Senador José Sarney.

Uma foi mencionada durante período de crise em que ele brandia a sua história, trajetória e passado, considerando-se um brasileiro diferenciado e especial por causa disto. Pois n’O Estado de São Paulo, Gaudêncio Torquato citou Machado de Assis:

- “A menor nódoa destrói a maior alvura”.

Outra veio de Dora Kramaer, também no Estadão. Sarney defendia que “a culpa pelos males da corrupção na política é do sistema eleitoral”. E que”enquanto não for mudado, não adianta punição nem indignação”. Dora citou então Roberto Campos:

- “Não e a Lei que deve ser forte. É a carne que não pode ser fraca.”

(dez/2009)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

No dia que o Sol arrotar...

... ou tiver soluços, poderemos ter problemas para os quais não nos precavimos.

Sempre admirei Santos Dumont por um teste que fez durante o desenvolvimento do avião. Ele pendurou um motor em uma árvore e o ligou, pois não sabia o que poderia acontecer ao funcionamento de um motor que não estivesse em contato direto com o solo. Quanta humildade, e quanta precaução! Tantas coisas podem acontecer além de nossos minúsculos conhecimento e expectativas, e tão pouco ou nada nos preocupamos com elas.

Cada vez mais dependemos de memória eletrônica. Cada vez menos temos backups físicos. Mas o Sol pode, de uma hora para outra, emitir um pulso eletromagnético (ou coisa que o valha) que apague toda a memória eletrônica que temos. Imagine-se a Humanidade sem toda a sua cultura! De um momento para o outro perdermos toda nossa evolução, nossa história, nossa tecnologia. De volta ao Planeta dos Macacos.

Esta preocupação já existiu no passado, dada nossa dependência da Eletricidade. Mas ali não estava em jogo nosso Conhecimento, mas simplesmente nossa fonte de acionamento. Aqui, a coisa é mais grave.

É claro que este peido solar fatal pode não acontecer nunca. Afinal, o motor de Santos Dumont funcionou quando pendurado em uma árvore; e embora ainda não saibamos explicar a Eletricidade, ela permanece sempre presente. Mas ainda é cedo para saber que não dependemos de backups físicos ou mecânicos para nossa memória eletrônica. E talvez nunca nos seja possível ter tal certeza.

(O pior é que no dia que nossa memória eletrônica se apagar, este texto vai junto! Eu nem mesmo vou poder dizer: - "Veja, eu avisei"!)

(dez/2009)

Porque a sua fila não anda

As pessoas se questionam porque a fila de automóveis em que estão não anda, e quando mudam de fila é a anterior que passa a andar.

A resposta é bastante simples, e não se deve a nenhuma "Lei de Murphy". Aliás, esta "Lei" sempre me pareceu papo de loser; como se houvesse uma "conspiração cósmica" contra sua pessoinha... Relaxe, você NÃO É tão importante.

O que acontece é simplesmente que em geral todas as filas fluem igualmente, embora em momentos distintos. Assim, se você abandona uma fila que estava parada, está abandonando uma fila que vai andar dentro de instantes!

(A única coisa que não sei explicar é porque a sua fila não anda enquanto você não sai dela, mas aí já é uma outra questão...)

E é claro que para quem está de moto, a fila não pára nunca...

(dez/2009)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Kill 'em All

Não é que não existam flores no pântano...

O problema é que é um pântano!

(dez/2009)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

D.O.A.

Como todo mundo, eu também achava que não iria morrer. Mas o filme “D.O.A.”, de 1988, me convenceu do contrário.

“D.O.A.” é a sigla para “Dead On Arrival”, carimbo que os hospitais americanos estampam nas fichas de pacientes que já chegam mortos. “Chegado Morto” significa “nós não fizemos nada”, “não houve o que fazer”, “estamos isentos de responsa!”.

“Morto Ao Chegar”, com Dennis Quaid e uma então florescente Meg Ryan, é a história de um Professor de Literatura com uma vida absolutamente pacata que certo dia começa a passar mal, suar, enjoar e vomitar, e vai fazer exames em um hospital... onde descobre que foi envenenado, um veneno poderosíssimo e irreversível, e que em 24 horas estará morto, não há nada que possa fazer. E mais, o veneno é raríssimo, não pode ter sido por acaso, ele foi envenendado de propósito! Segue-se então a história destas 24 horas em que ele vai investigar o porquê de ter sido assassinado. (Não estou estragando nada, pois o filme começa com ele entrando, ou melhor, se arrastando para dentro de uma delegacia de Polícia, onde todo estrupiado ele fala:
- “Vim aqui para relatar um assassinato. O meu...”)

Meg Ryan estava maravilhosa, creio ter sido a primeira vez qe a vi, e evidentemente fui fulminado por ela. Mas de volta ao filme: o Professor investiga e acaba descobrindo que havia um motivo perfeitamente lógico para que ele fosse morto; só que ele não sabia.

Assim, entendi que a qualquer momento, sem que o saibamos, podemos estar a 24 horas de nossa morte; podem existir motivos que não sabemos para sermos envenenados e assassinados; podemos cair da moto, levar um tiro, nos afogarmos ou cair o céu sobre nossas cabeças. Enfim: talvez faltem 24 horas para que estejamos Mortos Ao Chegar.

Quando comprei minha Honda NX-4 Falcon, tive a opção de escolha da placa, e pedi os algarismos de meu aniversário. Quantos às letras... o arcanjo Gabriel sugeriu que seria bom deixar um pouco de imprevisto e acaso para a vida, e assim foi.

Quando fui retirar a moto, as letras da placa eram... DOA!

(dez/2009)

O carro do futuro

Às vezes não é necessário ler a borra do café para se saber o que nos espera.

Nos imensos estacionamentos de Shopping Centers e supermegamercados, o que vemos é um oceano de veículos prateados ou escuros. É bastante comum que as pessoas tenham dificuldades em encontrar seus carros.

Por outro lado, o que se vê nas próprias pessoas? Uma multitude de piercings, tatuagens, roupas berrantes (nem sempre compromissadas com o bom gosto), makeup escalfobético, decotes abissais, penteados que espetam só de olhar, cuecas, calcinhas e regos aparecendo, enfim: como diz a música do Golden Earring, “Desperately Trying To Be Different”.

Ou seja, o contrário dos carros de hoje.

E qual o tamanho do carro do futuro? Com cidades superpopulosas e a resistência estúpida aos veículos de 2 rodas, com o esgotamento das fontes energéticas (“there is no sufficient data for a meaningful answer...”) e a estrangulante poluição com Gaiaquecimento, o que nos resta são os veículos pequenos, econômicos, de fácil manejo. Muito pequenos, e muito econômicos.

Logo, se existirem carros no futuro, eles provavelmente serão muito pequenos, muito econômicos, com cores berantes e decoração escalafobética, se diferenciando e destacando nos estacionamentos. Como seus donos.

Pode investir.

(out/2009)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os sinos do atraso

Ocasionalmente vou bater em algumas cidades onde os Padres teimam em fazer soar o sino da Paróquia ao longo da noite.

Isto acontece em lugares atrasados, onde o Respeito ao próximo ainda não é um conceito divulgado, compreendido e aceito. Por trás de esfarrapadas desculpas “nobres”, o que se esconde é um invasão pessoal muito pouco cristã.

No passado, o soar do sino significava que o Padre estava acordado, orando, velando pelos fiéis. Hoje o que aciona o sino é um mecanismo que tumultua a noite dos infelizes que tentam dormir junto a tal poluição sonora.

O comum pretexto de que “sempre foi assim” não se justifica, a partir da própria existência da religião católica. Quando Jesus veio a este Planeta já existiam outras religiões estabelecidas, e nem por isto ele se viu forçado a seguí-las; muito pelo contrário, apresentou uma mudança de rumo. Nada impede, portanto, a Igreja de igualmente adotar mudanças que sejam para o Bem – afinal, foi assim que ela nasceu.

Um sino tocando à noite representa simplesmente um deseperada tentativa medieval de demonstrar algum Poder, mesmo que seja somente o Poder de Importunar. A cada badalada o Padre demonstra que sim, ainda tem Poder: o arcaico “puder” de se impor e de atrapalhar o sono dos outros.

A batalha do final dos tempos não será travada por um Exército das Trevas versus as Forças do Bem lideradas por Arnold Schwarzenegger; pelo contrário, ela é travada pelo Bem e pelo Mal dentro de cada um de nós, a cada momento.

E cada vez que ouço uma badalada de sino na noite, representando que o desrespeito e o coronelismo de um Padre se impõem ao bem estar de uma Sociedade, eu temo pelo resultado desta batalha.

(dez/2009)

A pergunta mais importante

Isaac Asimov (que Pitty brilhantemente definiu como “profeta”) escreveu mais de 500 livros, dos quais devo ter lido uns 100 (muitos deles duas ou três vezes). Seu conto preferido para mim sempre foi ‘The Last Question’, do livro ‘Nine Tomorrows’. Fiquei portanto feliz quando certa vez lhe perguntaram qual de suas histórias era sua preferida, e ele respondeu:
- “Em um livro esquecido, ‘Nove Amanhãs’, há um conto curto chamado ‘A Última Pergunta’...”

Qual é a pergunta mais importante de nossas vidas? Para mim é aquela que nos faremos no final da vida, no leito de morte, nos despedindo deste Planeta, ou talvez até mesmo após a partida:
- “Foi isto mesmo que eu vim fazer aqui? Foi para isto que eu vim para esta existência? Era isto que eu tinha a fazer neste Planeta? Estou cosmicamente satisfeito?”

Quando você se fizer esta pergunta, não terá a seu lado ninguém checando sua resposta. Não vai ter Pai, Mãe, Irmã, Irmão, Professor, Namorada, Marido, Esposa, Filho, Chefe, Subordinado, Padre, ou Porra Nenhuma. É Você, com Você mesmo/a.

É bom ter uma boa resposta...

(dez/2009)

Pelé, a obstrução e a paradinha

Um dos "downsides" que a genialidade do Pelé nos deixou como herança foi a obrigatoriedade da convivência com a mediocridade de (quase) todos os demais.

Dois lances me irritam especialmente no futebol atual.

1. A “proteção” da bola

Pelé protegia a bola, interpondo seu corpo entre a bola sob seu domínio e o adversário, que assim não conseguia alcançá-la. Mas ele fazia isto durante a condução da pelota.

Hoje temos milhões de manés que interpõem seu corpo entre a bola QUE ESTÁ SAINDO DE CAMPO e um adversário que deseja alcançá-la. Ora, isto é anti-jogo! O jogador está protegendo uma saída de bola; forçando uma interrupção da partida! Este movimento sempre foi falta, e se chamava “Obstrução”; mas graças à forma genial como Pelé conduzia a jogada – aí sim, como efetiva proteção – hoje temos que aturar estes porteiros de boate que escoltam a bola até fora do campo. A obstrução passou a ter o nobre nome de “proteção”.

Ora, mudar o nome da merda não a deixa cheirosa! Proponho que tal “escolta” somente seja válida caso o jogador esteja REALMENTE de posse da bola, ou seja: o último a tocar nela tenha sido um atleta de seu próprio time. Caso contrário, é obstrução! É anti-jogo! É falta!

2. A “paradinha”

Ao correr para bater um penalty, Pelé dava uma SUTIL desviada na trajetória do corpo, quase uma “paradinha”, para deslocar o goleiro. Bola para um lado, goleiro para o outro.

Hoje temos milhões de manés que INTERROMPEM o galope rumo à bola e esperam que o goleiro se projete para um lado para então empurrar humilhantemente a bola para o outro. Entendo que a principal graça do futebol esteja no gol, mas isto não tem graça nenhuma: é pura covardia.

Minha proposta: a partir do apito do Juiz para a cobrança do penalty, todo mundo pode correr. Inclusive o goleiro. Assim, se o jegue empacar no meio do galope, pior para ele.

Ah, Pelé... Saudosa lembrança, mas maldita herança!...

(dez/2009)

O Medo do Gato


Leio em algum lugar que o sentido mais presente nos animais é o Medo. Que não temos idéia do quanto os animais estão permanentemente em alerta, permanentemente preparados para o pior, permanentemente com Medo.

Faz sentido. Minha Namorada tem um Gato há 9 anos. Há 9 anos o bicho praticamente não sai de casa, convivendo sempre com as mesmas pessoas, tendo sempre a mesma rotina, o mesmo cuidado, o mesmo carinho.

Isto não o impede de estar em permanente alerta. Sempre ligado, pronto para um bote. Sempre com Medo. Não há como convencê-lo do contrário; de que aquelas pessoas vão tratá-lo bem. A patinha está sempre pronta para uma súbita gatunada.

E como somos nós, humanos?

De repente, começa uma “crise” no Mundo. Crise? De repente? Sim. Não interessa que seja localizada, que atinja somente uma parcela da Economia. As pessoas ficam com Medo! Param de comprar, param de sair, de viajar, de consumir. As Empresas param de investir. Tudo congela... Todos têm Medo.

Medo do quê, exatamente, não se sabe.

Não à toa a Rainha Elizabeth perguntou porquê NENHUM Economista previu a crise. Nem umzinho!

Mas foi por isto. Foi porque o Homem tem o Medo do Gato.

(nov/2009)

Centrum e o custo da propaganda

Por motivos diversos (sempre tenho motivos diversos para fazer qualquer coisa), sou usuário de Centrum há muitos anos.

Adquiro uma embalagem com 130 cápsulas aproximadamente a cada 6 meses.

Me é fácil, portanto, acompanhar de cabeça a evolução do preço do produto.

Há alguns anos tal “pack” custava pouco mais de 60 reais.

Com o passar do tempo passou para 70, e depois 80. Vá lá.

Mas recentemente – certamente com o intuito de alavancar a participação de mercado – contrataram um megafamoso apresentador de programas juvenis de auditório para anunciar o polivitamínico. Resultado: o preço passou para algo entre 110 e 120 contos.

Não se trata de uma questão financeira, mas conceitual: não vou pagar um overprice para bancar o sorriso do megafamoso apresentador de programas juvenis de auditório me vendendo algo do que eu já era cliente há muito tempo. Não é por causa de seu sorriso polido que eu vou continuar comprando a mesma coisa.

E assim, graças a esta política comercial, o produto perde clientes antigos.

Mas creio que isto esteja em perfeita sintonia com o pensamento empresarial atual: o cliente novo vale muito mais do que um antigo.

Hoje estimula-se muito mais a infidelidade do que a fidelidade. Afinal, é muito mais fácil investir no curto prazo do que no longo.

(dez/2009)

Um porquinho me contou...

... que laboratórios e farmácias estão ENTUPIDOS de vacinas contra a gripe suína.

Prepare-se portanto para ser soterrado/a por propagandas tentando te condicionar que você PRECISA tomar a bendita vacina.

Mas lembre-se do que disse J. P. Morgan (em tradução pessoal): “todos os gestos têm dois motivos: um nobre... e outro verdadeiro!”.

(nov/2009)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Depoimento sobre o Caminho do Sol

Enviei o Depoimento abaixo ao site do CAMINHO DO SOL.
No final, com cabelo e barba enormes, eu estava parecendo um URSO!

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Cumpri o CAMINHO DO SOL de 04 a 15 de agosto de 2009. Éramos um grupo de 3 Mulheres e 5 Homens, dos quais eu não conhecia ninguém antes da jornada. Aos 53 anos de idade, e tendo feito Santiago em 1996 (da França a Finisterre a pié), o CAMINHO DO SOL serviu como rememoração e também busca de introspecção e isolamento. E ainda como um “spa” pessoal, pois uma vez que não sou chegado a ginástica ou academias, as caminhadas em contato com a Natureza são uma excelente alternativa para queimar as indecentes gorduras localizadas (na pança).

HOSPEDAGEM
Uma vantagem e uma desvantagem sobre o Caminho de Santiago. Saber que teremos (boa) hospedagem no final do trecho é uma enorme tranqüilidade; por outro lado você precisa acabar o trajeto sempre antes do almoço, o que inviabiliza parar para escrever, tomar um banho de açude ou mesmo almoçar em algum lugar mais atraente. Mas sempre chegávamos ao destino entre meio dia e duas da tarde, de forma que metade do dia era dedicado a curtir os destinos.

SACO DE DORMIR E TOALHA
Como algumas (poucas) pousadas não oferecem roupa de cama ou de banho, é necessário levar.

ALIMENTAÇÃO
Muito boa nas Pousadas, não temos problemas. Siga as instruções de carregar alguma (pouca) coisa na mochila durante o dia como barrinhas de cereais, bananas e chocolatinhos (protegidos contra o calor) e claro, água (para mim, 1 litro era suficiente para qualquer percurso). Você encontra vendas ao longo de alguns trajetos, em outros não; mas sempre se sai do refúgio sabendo se vai haver alguma coisa.

MOCHILAS
Use e abuse do eficiente sistema de traslado das mochilas. Custa barato e é rateado entre quem quiser despachar. O nome “Caminho do Sol” não é à toa: em nosso caso, só vi nuvens em um único dos 11 dias de caminhada; em todos os demais, Sol a pino full time. A mochila se torna mais pesada do que realmente é, e pode tirar um pouco da graça da caminhada. Minha recomendação pessoal é que você leve um sacolão com zíper que despachará entre as pousadas com os artigos que não utilizará durante o dia (saco de dormir, sandálias, artigos de toalete, roupas, etc) e carregue na mochila apenas o que vai ou pode vir a precisar durante o dia: água, comida, casaco, capa de chuva, protetor solar, etc. OBS – é claro que esta recomendação não vale para quem estiver se preparando para Santiago; neste caso, é melhor ir treinando o lombo.

O TRECHO MAIS DIFÍCIL
São os dois primeiros dias. Muita rodovia de asfalto. Não desanime ou desista, pois depois você vai ver árvore, cana-de-açúcar, pedra, rio, terra, coruja, falcão e vaca até ficar legal...

CABREÚVA
O refúgio em Cabreúva fica fora – e depois – da cidade. Desta forma, você precisar fazer algum reabastecimento (ou se quiser registrar na credencial o belíssimo carimbo da Paróquia), faça-o ao passar pela cidade. E guarde suas energias, pois não somente o refúgio fica cerca de 1km após a cidade como também fica no cume de uma terrível pirambeira! E quando você entrar na cerca da Pousada, ainda não acabou: resta um pouco de (bastante puxada) subida.
A Pousada no entanto compensa: a massagem que oferecem é altamente recomendada, e se você quiser ir à cidade (eu fui para a Missa e o carimbo) pode pedir um táxi (R$ 7 cada perna).
A partir da saída de Cabreúva, o trajeto se torna glorioso.

SALTO
Parece ser uma bela cidade, mas passamos por ela apenas marginalmente, sem conhecer o Centro. Caso tenha energia, disposição e tempo (não esqueça de despachar a mochila na véspera), faça um “detour”, desviando-se do Caminho e fazendo uma visita. Talvez até possa almoçar lá (embora o almoço na Fazenda Vesúvio seja ótimo). Afinal, o Caminho é excelente para (também) fazer turismo.

CACHORROS
Sempre temo cachorros em caminhadas, mas não tive o menor problema. Só encontrei doguinhos amigáveis. Minha postura com eles é sempre de humildade e afastamento, não invadindo o espaço. Funciona. Mas quando eles se aproximavam eu caminhava com uma mão no cajado e outra na faca no bolso da calça cargo, para garantir...

ÉTICA PEREGRINA
Você não está em uma alegre jornada de férias com amigos, mas usufruindo de uma infra-estrutua de caminhantes e peregrinos. RESPEITO aos demais é fundamental, como sempre na vida. Assim:
- Existem aqueles que gostam de acordar cedo e os que preferem dormir mais; da mesma forma, alguns vão dormir mais cedo e outros mais tarde. Quando usar o dormitório, RESPEITE as diferenças. Entre e saia em silêncio, sem falar e fazendo o mínimo de barulho; não acenda a luz, mas sim use lanterna.
- Por mais que você goste de música, televisão e barulho, nem todos gostam. O Caminho nos oferece os sons do vento, das aves, das árvores e da água, que não temos no dia-a-dia; a oportunidade de conversar com pessoas novas ou então o silêncio para escrever ou meditar. Se for para ouvir axé ou o Jornal Nacional, é preferível ficar em casa. Aquilo que é “música da boa” para você, para os outros pode ser (e provavelmente será) poluição sonora. Novamente: RESPEITO.

BRUXOS, SACERDOTISAS E SACIS
Se você tiver o olhar certeiro, saberá encontrá-los. (Até mesmo entre seus/suas companheiros/as de jornada...). E aprenderá (muito) com eles/as.
Há também um Portal Mágico, mas não vou entregar aonde fica.

ÁGUAS DE SÃO PEDRO
Uma graça, um ótimo pote de ouro no final do arco-íris. Pouco antes do término da missa na noite do Sábado da chegada, o Padre chama nominalmente os Caminhantes ao altar, citando nossas procedências, fala sobre os caminhos de todos nós (peregrinos ou não), e nos abençoa. Toda a Igreja aplaude. É emocionante. (E ainda tem carimbo!...)

EM RESUMO
Um Caminho que propicia um contato mágico consigo próprio e com a Natureza. Que serve para melhorar seu aspecto (tanto a barriga como as batatas das pernas e o bronzeado). Onde você é tratado com carinho pelos hospedeiros. Mas que te expõe muito: no Caminho, acima de tudo, o “output” depende do que você tem por dentro.

(ago/2009)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

I cry for you, Argentina

Vejo (muita) gente torcendo para a Argentina não se classificar para a Copa do Mundo de 2010.

Na Copa de 2006, no jogo Argentina x Alemanha, a grande maioria dos torcedores brasileiros torceu pela Alemanha.

Nem preciso dizer que não vejo o menor sentido nisto. Trata-se de pensamento provinciano, e muito pequeno. Coisa de gente que acha que o Mundo não vai além de seu quintal.

Quando você se defronta com um europeu, o que vale no confronto são os títulos da América do Sul versus títulos da Europa. E a coisa está pau a pau, nove títulos para cada! (É claro que isto não é importante para quem não encontra europeus, o que apenas reforça a afirmação de provincianismo). Além disto, teria sido muito mais interessante enfrentar nossos vizinhos do que os donos da casa em uma (então ainda possível) final. Além do que a Argentina só tinha 2 títulos contra 3 da Alemanha, ou seja, um eventual título portenho seria menos ameaçador para a supremacia canarinho. Mas nada disto foi levado em consideração, e torceu-se pela distante Germânia.

Será que as pessoas preferem ter a Zâmbia em uma Copa do Mundo, ao invés da Argentina? Não gostam de ver o belíssimo futebol de nossos vizinhos? Sinceramente, prefiro Brasil e Argentina contra o Resto do Mundo do que o Brasil sozinho contra o Resto do Mundo. Mas este não é o raciocínio comum; o que vale é o espírito de porco, quero ver meu vizinho triste, f*dido, sofrendo. O Homem é, sim, o lobo do Homem.

(Ou talvez seja medo... medo da Argentina...)

Sou carioca e moro em São Paulo. Torço por times do Rio quando jogam jogam contra adversários de fora. Da mesma forma que torço por times brasileiros quando jogam contra estrangeiros. Um movimento de expansão. Crescimento, e não redução; irradiando, e não convergindo.

É assim: no Mundo, sou América do Sul. Na América do Sul, sou Brasil. No Brasil, sou Rio. E no Rio, sou Vasco!

(out/2009)